Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, em 2018, virou editor-adjunto de Esportes. Trabalhou na cobertura das Copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Atualmente, é editor-chefe de Esportes do O POVO, depois de ter chefiado a área de Cidades. Escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo no Esportes O POVO
Eu culpo Eurico Miranda. Talvez por mal geracional, é nele que deposito as culpas da geração atual de torcedor de dirigentes. Foi ali, com os charutos e falastrice do carismático chefão do Vasco, que a sociedade futeboleira passou a normalizar a figura dos "cartolas", outrora vilões máximos do esporte nacional.
Prova disso é que o termo caiu em desuso. Muito se fala do quanto o futebol brasileiro ruiu quando os craques trocaram os apelidos malemolentes por sobrenomes anódinos. Pouco se fala sobre a substituição de "cartola" — uma maravilhosa expressão que já pinta o vilão de um romance de capa e espada — pelo farialimítrofe "gestor".
Por décadas, o futebol carioca foi comandado por Eduardo Viana, o inglorioso "Caixa d'Água". Parece apelido tirado direto da sexta série de qualquer escola cearense. O cartola mandou e desmandou na Ferj entre 1984 e 2006, quando encerrou o périplo no futebol e no plano dos viventes. Acusado até de roubar renda do Maracanã, "Caixa" era um clichê ambulante do que era um manda-chuva de então. O que equilibrava o ambiente era o fato de ser torcedor do Americano Futebol Clube — ou seja, (supostamente) beneficiava um time de passado, presente e futuro obscuros.
Hoje, Rio de Janeiro à fora, quem se destaca é Luiz Eduardo Baptista, do Flamengo. Ou BAP, como é conhecido, com um um apelido de ascendência farialimítrofe. É o grande gestor do momento, com um legado parecido com aquelas histórias "inspiradoras" de empreendedores que herdaram um patrimônio milionário para virar multimilionários.
Dirigente do time mais rico da América do Sul, ele recusa migalhas ao que não julga prioritário e faz do Clube de Regatas do Flamengo uma monocultura tão lucrativa e nociva quanto a de soja do agronegócio. Como houve uma limpeza de imagem da visão corrupta do que é um cartola, BAP tem uma claque — aquela galera que é paga para aplaudir, ou, no caso dele, vaiam quem critica. Assim, tem quem defenda o descaso ao futebol feminino, quem vibre com ataques misóginos a jornalistas e até ache justo o fim da equipe de canoagem que consumia menos de 0,01% do orçamento bilionário do clube.
Sinto falta do cinismo. É de partir o coração ver torcedor se desdobrando em elogios a um cartola recém rebaixado, para dois dias depois tal gestor abandonar o barco à deriva rumo à Série B. Cartola nunca foi ídolo — pelo menos até Eurico —, mas dirigentes e gestores insistem em ser.
Mas quem importa não é o gestor. Nem mesmo o jogador. Time é feito de torcida. E o futebol é feito de ciclos. Às vezes, as coisas melhoram com a mesma velocidade com que azedaram. E quando o caldo entorna, as cores do clube prevalecem sobre o legado de qualquer bicho de orelha com lábia de administrador.
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