Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, em 2018, virou editor-adjunto de Esportes. Trabalhou na cobertura das Copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Atualmente, é editor-chefe de Esportes do O POVO, depois de ter chefiado a área de Cidades. Escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo no Esportes O POVO
Heated Rivalry: sexualidade, hóquei no gelo e representatividade
Nem toda obra é para todos. E ainda que eu admita ter zero interesse em assistir ao romance no gelo, sou o primeiro a defender a importância de uma obra "boba" que traga luz aos temas da série
Foto: Sabrina Lantos/ Crave/ Divulgação
Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie), protagonistas de Heated Rivalry (Rivalidade Ardente)
Maior sucesso internacional da TV canadense, a série "Heated Rivalry" une dois dos meus assuntos favoritos do mundo: hóquei no gelo e viadagem. Ainda não lançado oficialmente no Brasil — chega à HBO Max em fevereiro —, o seriado adapta a obra "Game Changers", da escritora Rachel Reid, e se centra no relacionamento secreto entre Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie), estrelas ficcionais da modalidade.
Eu não assisti à série. Talvez porque eu gostaria de cravar a bandeira primeiro como consumidor de um nicho cultural extremamente específico. Talvez porque eu não me sinta realmente o público-alvo da obra. Talvez porque Hudson e Connor não façam muito o meu tipo. Talvez porque eu esteja velho demais, ranzinza demais.
Mas nem todo o meu pedantismo indie é capaz de negar que a obra é um fenômeno cultural significativo, que consegue trazer efeitos na sociedade.
Um levantamento do OutSports, site especializado em diversidade nos esportes, contabiliza 17 homens assumidamente LGBTQIA+ no hóquei no gelo. Nenhum deles, porém, chegou à NHL, principal liga do mundo — e que é ficcionalizada em "Heated Rivalry". Quem mais perto chegou foi o norte-americano Luke Prokop, que joga na AHL, espécie de “liga menor” da NHL.
Jesse Kortuem, ex-atleta da modalidade, se assumiu publicamente na semana passada, citando como a série o ajudou a lidar com a própria sexualidade.
Paralelamente, trouxe uma atenção rara ao hóquei no gelo, o primo feio dos esportes americanos. Apesar da imensa popularidade no Canadá, é uma modalidade de visibilidade ínfima e povoada de estigmas. "Então não tem regras? Pode brigar?"
"Heated Rivalry" não é inovadora ao juntar homossexualidade com esportes. É um tropo relativamente comum, por exemplo, em mangás/animes. Mas tais obras japonesas são em geral "vagamente homossexuais", com os relacionamentos baseados em sugestão ou subtexto. Ou seja, não são exatamente queer, mas satisfazem quem busca se identificar com os personagens, caçar uma pista que confirmaria a diversidade sexual da obra — ou "queerbating", como costuma ser denominado o recurso narrativo.
A obra canadense é muito mais ocidental, tanto por levantar o tema da homofobia, quanto por não se furtar a explorar a sexualidade. Assim, gera identificação, cria interesse, chega a mais gente.
Para o contexto LGBTQIA+, é uma nova opção. Nem toda obra queer precisa ser vanguardista como as de Derek Jarman, Todd Haynes ou Gregg Araki (ícones do New Queer Cinema) ou trágica como "Brokeback Mountain" ou "Moonlight". Às vezes, bobagens românticas como "Heartstopper" ou "Com Amor, Simon" podem ajudar a pessoa a se sentir bem consigo.
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