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Médico, Epidemiologista. Pós-doutor pela Universidade de Harvard (Harvard School of Public Health). Doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Mestre em Epidemiologia Ambiental e Políticas pela Universidade de Londres (London School of Hygiene & Tropical Medicine) e Residência em Medicina Preventiva e Social na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz).

Antonio Lima Neto ciência & saúde

A classe média e o SUS

Tipo Opinião

Winston Churchill perdeu a eleição para primeiro-ministro da Grã-Bretanha em 1945 para Clement Attlee, o oponente quase desconhecido do Partido Trabalhista. A personalidade britânica mais marcante do século 20 segundo diversas enquetes, herói da segunda grande guerra encerrada poucos meses antes da votação, o homem que conclamou e inspirou, com sua poderosa oratória e exemplo de coragem, os britânicos a resistirem, mesmo com Londres sob bombardeios nazistas diários, não convenceu a população de que seu Partido Conservador seria capaz de enfrentar os principais desafios do pós-guerra.

Em 1942, o chamado relatório Beveridge, escrito por Sir William Beveridge, economista do governo de alta reputação, havia enumerado os grandes males que teriam que ser confrontados durante o processo de reconstrução do país após o fim da guerra.

A estratégia chave sugerida para enfrentar a carestia, o adoecimento, a ignorância, a miséria e o desemprego em massa que viriam era criação de um Serviço de Saúde Nacional (National Health Service - NHS). Este permitiria o acesso universal à saúde sem pagamento e seria custeado pelos impostos pagos ao Governo Central.

O programa de governo do Partido Trabalhista foi desenhado com base no Relatório Beveridge. A principal promessa de campanha era erguer um sistema de saúde para todos. Pobres e miseráveis não morreriam mais em casa ou nas ruas quando as instituições de caridade estivessem lotadas. Eles teriam o direito inalienável à saúde garantido. A eleição estava perdida para o velho Churchill.

Ao sindicalista, filho de mineiros do País de Gales, Aneurin “Nye” Bevan, foi dada a missão de liderar, como ministro da Saúde, o processo de implementação do NHS. Com sua habilidade de negociador e discursos apaixonados no parlamento em que apontava com vigor a injustiça de se negar atendimento aos menos afortunados, ele conseguiu superar a forte oposição das entidades médicas britânicas (Associação Médica, Sindicato dos Médicos) e aprovou o ato de criação do NHS em 1946.

 

O NHS é o segundo maior sistema de saúde de acesso universal do ocidente. O maior é o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil. No momento em que o SUS passa pelo seu maior desafio, quando absorve a milhares de pacientes com Covid-19, em todos os seus níveis de atenção, é hora de pensar no seu futuro.

 

Dois anos depois, boa parte dos britânicos não mais pagavam diretamente por uma consulta médica ou atendimento odontológico. Leitos hospitalares nunca mais seriam vedados a um cidadão britânico por este não ter dinheiro no bolso.

Nos anos 1980, a primeira-ministra Margaret Thatcher no auge das privatizações, que quase desmontaram as estruturas do estado de bem-estar social, pensou em incluir o NHS no rol de reformas. Após forte oposição, desistiu.

O NHS foi homenageado na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres de 2012. Em 2016, pesquisa da consultoria Ipsos apontava que a coisa que mais fazia os britânicos se orgulharem da sua nacionalidade era seu sistema de saúde.

Mais de 95% da população britânica é usuária do NHS e sua aprovação tem girado em torno de 70%. A maioria dos pacientes é avaliada inicialmente por um médico de família (General Practioner - GP), fazendo com que a atenção primária seja sempre a “porta de entrada” e a reguladora do sistema. A necessidade de um especialista, de internação ou exames de maior custo seguem protocolos.

O NHS é o segundo maior sistema de saúde de acesso universal do ocidente. O maior é o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil.

No momento em que o SUS passa pelo seu maior desafio, quando absorve a milhares de pacientes com Covid-19, em todos os seus níveis de atenção, é hora de pensar no seu futuro.

Como todos os sistemas de saúde universais, ainda mais os fortemente subfinanciados, existem muitas falhas a serem apontadas. A gestão dos serviços precisa ser mais eficiente; indicadores de sucesso devem ser perseguidos e monitorados; as condutas devem ser baseadas nas melhores evidências; a relação entre profissionais e pacientes precisa ser mais humana e acolhedora; os vazios assistenciais, que estavam parcialmente supridos antes do fim do programa “Mais Médicos”, preocupam como nunca. Enfim são essas e muitas outras questões.

Aqui gostaria de abordar um tema em especial. A relação da classe média com o SUS. Por que a classe média não utiliza o SUS? Por que a maioria desdenha do sistema? Por que os planos de saúde se tornaram um bem de consumo tão desejado?

Anos atrás, um amigo me disse que enquanto todos não estiverem sendo atendidos nos postos de saúde, aguardando na fila de espera para os especialistas, para internação, para o leito de UTI, esperando pela ultrassonografia, pela tomografia ou pela ressonância magnética, a dívida social continuará e o SUS morrerá um pouco a cada dia.

Nosso sistema misto em que um em cada quatro brasileiros tem plano de saúde é inviável. Se eu posso marcar uma consulta direto com o otorrinolaringologista quando tenho uma leve dor de ouvido, por que encarar a fila do posto de saúde? Economizo um pouco, faço meu checkup, chego mais rápido no meu leito, tenho os melhores médicos que fogem do SUS pelos baixos honorários ou por outra coisa qualquer, agendo minha ressonância sem fila com hora marcada, e por aí vai.

Nós da classe média que dependemos do SUS perifericamente. Nós que precisamos da inspeção dos alimentos pela vigilância sanitária, que dependemos dos agentes de endemias para vasculhar nossos apartamentos em busca de focos do Aedes aegypti, que ganhamos na justiça o direito a medicamentos e terapias de alto custo quando o plano nega, ou que eventualmente precisamos de um transplante de fígado, nós nos dividimos em detratores e apoiadores incondicionais do SUS.

 

Anos atrás, um amigo me disse que enquanto todos não estiverem sendo atendidos nos postos de saúde, aguardando na fila de espera para os especialistas, para internação, para o leito de UTI, esperando pela ultrassonografia, pela tomografia ou pela ressonância magnética, a dívida social continuará e o SUS morrerá um pouco a cada dia.

 

Epidemiologistas, sanitaristas, pesquisadores e muitos outros profissionais e grupos estamos sempre elogiando o SUS na imprensa, em artigos, onde nos deixem falar.

A outra e mais numerosa porção dessa classe média difusa é a que estará sempre ridicularizando o sistema, apontando os defeitos existentes e os fantasiosos, com o velho jargão na ponta da língua: o SUS não funciona por causa da corrupção. Sempre ela.

Mas temos algo em comum. Algo estranho nos une, militantes do SUS e haters. Todos nós, na verdade quase todos (exceções que saúdo, mas não me incluo), pagamos religiosamente nosso plano de saúde. Se possível o menos popular, com apartamento individual.

O que me incomoda miseravelmente nas nossas avaliações é que não usamos os serviços cotidianamente. Nós temos percepções de vivências pessoais indiretas ou apenas teóricas. Avaliamos indicadores, entrevistamos usuários reais do SUS, realizamos no máximo, estudos quase “etnográficos” dentro das unidades básicas.

Se conhecêssemos de dentro, embutindo nosso sofrimento pessoal ou satisfação genuína, ganharíamos legitimidade. Os chamados formadores de opinião fortaleceriam o sistema, ecoariam as críticas, motivariam reformas como aconteceu seguidas vezes no NHS, por exemplo. Mas, não. A gente prefere nosso plano, que nos distingue.

Voltando à Inglaterra, onde já fui atendido e fiquei seis horas em uma fila com saudade do meu plano de saúde, relembro que sistemas universais estão fundados em pactos sociais complexos, como o que Nye Bevan conseguiu. Tristemente, uma quimera cada dia mais distante.

Enquanto a saúde suplementar cresce, as filas por procedimentos no SUS aumentam, os atendimentos tornam-se mais precários, os leitos hospitalares mais raros, a política de prevenção e promoção da saúde se fragiliza.

Nosso maior conforto, permitido pelo apoio governamental de toda ordem que os planos de saúde recebem, implica na precarização paulatina do SUS, expressa nas políticas de austeridade fiscal e em toda sorte de artifícios e incentivos às empresas privadas.

Não esqueço sua denominação. Era pra ser um sistema único, não é mesmo?

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