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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Saudades de Eliete e o culto aos mortos nas redes sociais

No mundo desencarnado da net, vive-se eternamente. Por isso, pensando nesta vontade de sobreviver a todo custo de alguns, pelo menos uma plataforma social já adiantou a ideia: você escolhe em vida o herdeiro que vai se ocupar da sua rede social, quando você tiver passado desta para melhor. A ver se depois de morto você ainda arrasta seguidores. E cliques de saudades
Rolinha fogo-apagou solitária na paisagem urbana das ruas de Fortaleza-Ceará (Foto: DEMITRI TÚLIO)
Foto: DEMITRI TÚLIO Rolinha fogo-apagou solitária na paisagem urbana das ruas de Fortaleza-Ceará

 

Tem histórias que marcam a gente. A de Eliete, e as saudades que por aqui deixou, é uma delas. E olha que já lá se vão 20 anos desde que foi publicada nas páginas do jornal O POVO (29/5/1998), no Ceará. É o caso de um viúvo que deu seu jeito para passar, ao lado da finada esposa, datas importantes para o casal. Aniversários, inclusive, a não perder.

Apetrechado com o “de um tudo”, jantar incluso, ele mudava-se para o cemitério, pelo tempo de uma noite. O programa noturno incluía, como de costume, assistir velhos vídeos caseiros em um aparelho tevê, ligado com a astúcia de um gato, na eletricidade. Depois, colchonete, travesseiro e lençóis para amortecer a dureza e o frio da tumba. Sobre o sono eterno dela, o sono empijamado de uma noite dele. Até o ano que vem, Eliete.

A tecnologia, o costume e o tempo mudaram. O que há de ser do viúvo saudoso nos dias de hoje? Porque, longe da ideia dos acampamentos em cemitérios, para as saudades de agora temos as rápidas e confortáveis salas virtuais no facebook. Dedicadas aos que já se foram, chamam-se memoriais.
A rede social até estimula os mais prevenidos: você pode escolher em vida seu herdeiro online, sabia? O sortudo não recebe um centavo, mas sim a missão de manter a conta da rede social atualizada, em ordem e cheia de interesse. Ora, a ideia até que veio em boa hora. Já que milhares de perfis ficaram, de repente, sem gestores, com as mortes por Covid. Esse pessoal pensa mesmo em tudo. Ou seria o caso dizer, não dá ponto sem nó? No repaginar e reintegrar, nada se perde, tudo se transforma - em cliques.

Reportagem veiculada no suplemento Vida
Reportagem veiculada no suplemento Vida

A antiga página do defunto é, primeiramente, limpa dos comentários políticos, filosóficos e de ordem pessoal, tudo o que foi postado na pregressa vida de internauta. Desse passado ativo, de opiniões declaradas, não fica nadica de nada. O morto não tem mais nada a dizer. Evita-se, assim, riscos de desagravos e susceptibilidades para um e outro vivente. Pasteurizada, ganha, então, cara de sala de encontro. Para amigos e parentes, claro.

Então, você passa lá para visitar o perfil daquele tio querido, do seu primo mais chegado, do seu pai ou da sua mãe e deixa lá um post, deixa uma foto antiga, deixa um pictograma. Um tijolinho personalizado na construção do grande mural online. Do zero, a vida do morto vai sendo, assim, reconstruída, embelezada, floreada ad infinitum – narrativada.

Depois de algum tempo, a história das ideias, percalços e fortuna do falecido aqui na Terra será outra coisa, no mundo online. Um híbrido de centenas de likes, curtidas, reações, adições e breves recortes de memórias de cada internauta, integrantes da comunidade fechada dos fãs e parentes de. E, ao que parece, o fenômeno tem tido sucesso.

O memorial do cantor sertanejo Cristiano Araújo, morto em acidente em 2015, tem mais de 8 mil seguidores. O da atriz Daniella Peres, mais de um milhão de membros. Bem mais modesto é o de uma amiga portuguesa, que mantém em dia o memorial do tio. O gajo reunia em torno dele toda a parentada e ainda hoje faz isso, mas agora no online. Já eu sigo no facebook o perfil de uma amiga falecida, a quem deixamos recados e notícias terrenas. Em datas significativas, a moça bomba na timeline dela.

Estes mortos na carne e vivos online têm me dado o que pensar. Já que andam por aí, inclusive, a assombrar minha linha do tempo. À espera de confirmação, pelo menos duas solicitações de amizade de gente que já se foi desse Planeta. Na impossibilidade sentimental de empurrar agora o botão “recusar” para dois amigos falecidos, ficam estes pedidos em aberto, estas mãos estendidas, estes olhares chateados que me perguntam: por que não me aceitas? Aceita-me!

Meu amigo, passou-me a perna a realidade da vida, que não deixa ninguém esperando. Destas novidades Black Mirror, salvou-se Eliete. No memorial de mármore dela, se é que ainda vive o viúvo, são mãos de carne e osso que zelam pela versão do casamento perfeito e de uma saudade além-tumba. Saudades de Eliete, sem emojis.

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