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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Amiga da Cresmina, as dunas dos ventos de Cascais

Ah, a formosura de Cresmina! Quem por lá passa, faz descobertas de fauna e flora, mas também enche os olhos, aligeira a alma, respira a pleno pulmões e leva para casa, para além das fotos e memórias, um corado de sol nas bochechas e um grão de areia no calcanhar
Tipo Crônica
Duna da Cresmina, no Parque Natural de Sintra-Cascais, em Portugal (Foto: ARIADNE ARAÚJO)
Foto: ARIADNE ARAÚJO Duna da Cresmina, no Parque Natural de Sintra-Cascais, em Portugal

Mal as portas do confinamento entreabriram-se, em Portugal, fui direto visitar uma velha conhecida minha, a Cresmina. Depois de um ano, encontrei-a já com feições diferentes e, pelo menos, 10 metros a mais para o Sul. Você já deve ter imaginado, não é gente de carne e osso. Mas, garanto, é vivíssima.

No litoral de Cascais, é um frágil sistema de dunas parabólicas que recebe, das praias próximas e de um corredor eólico, milhares de grãos de areia e ventos carregados de sal. E, em meio a estas areias batidas e reviradas pelo vento, quem vê de relance, não acredita, mas, pululam comunidades inteiras de pequenos animaizinhos, aves, plantas e flores exclusivas da região.

O cravo-romano é uma destas preciosidades que enfeitam a cabeleira dessa menina-areia. Rara, esta flor não se acha por aí, a três por quatro. É uma espécie endêmica e já nos tempos dos romanos encantava, com o nome de armeria. O narciso-das-areias é outra florzinha mimosa, com pétalas em branco e, para os que lhes encostam o nariz, cheiros.

Veja lá, aquela é a raiz-divina, também chamada erva-divina, um tipo de cravo muito comum por estes lados e que só se dá bem no areal. E o encontro, ao acaso, com a enfiada de nomes assim maravilhosos vai formando o buquê imaginário das flores da Cresmina. Colhe-se apenas com a lente da máquina fotográfica, mas o ramalhete final é para não esquecer.

No entanto, é bom avisar, não se abraça a Cresmina, assim, como se faz com muitas dunas, no Ceará, afundando pés e pernas no frouxo dos seios de areia - tem gente que ensaia uma estrela, outros dão cangapés. Pois, aqui, a moça é protegida e o percurso inteiro é sobre belos passadiços de madeira. Diga-se de passagem, coisa que se vê muito em Portugal.

"Deveria ser um grão assim, acidentalmente grudado ao calcanhar, o máximo que se poderia ter de uma duna. Por isso, Cresmina, eu te conto, tuas irmãs de areia têm sofrido, no distante Ceará. Quando não são tratores e pás, são turistas em carros tracionados, em endiabrados vai-e-vem"

Suspensa em palafitas, a trilha faz apenas dois quilômetros – o parque todo tem 66 hectares. Pode até parecer curta, à primeira vista, para os amantes de caminhadas. Mas, ela é toda volteios, subidas e descidas, escadinhas ali e aqui, respeitando o movimento do terreno. Quando se vê, já lá vai uma boa hora. Principalmente se o caminhante está atento às surpresas do lugar.

Da estrutura, não se vê assim fácil, mas adivinham-se, por exemplo, lagartixas-de-dedos-dentados e coelhos-bravos, escondidos nos juncos e fenos, plantados na barriga do areal. Mas, em voos, é capaz de dar sorte, com paciência, de se avistar perdizes, gaivotas-de-cabeça-preta, borboletas-das-eufórbias e pássaros, como o cartaxo e o alvéola-branca.

Para isto servem os painéis explicativos e os bancos de madeira, instalados em pontos estratégicos do passadiço, onde os cansados, os maravilhados ou os com mais tempo se sentam para descansar, para apreciar a paisagem e para esperar. Negócio de tentar a sorte de um flagrante da vida animal. E, após as pausas investigativas, Cresmina pode ainda reservar mimos inesperados, como da última vez. Ou teria sido lembrete de que ninguém segura o seu andar?

Pois, em movimento natural, a duna tinha dado passada larga sobre um trecho da trilha, enterrando metros do passadiço. É preciso, então, tirar a chinela e atravessar, de um lado a outro, o riacho de areal. Por breves momentos, o fofo da areia massageia o pé e cola bem colado nos dedos uns tantos grãozinhos translúcidos, que hão de te acompanhar até a casa.

Deveria ser um grão assim, acidentalmente grudado ao calcanhar, o máximo que se poderia ter de uma duna. Por isso, Cresmina, eu te conto, tuas irmãs de areia têm sofrido, no distante Ceará. Quando não são tratores e pás, são turistas em carros tracionados, em endiabrados vai-e-vem. E minha amiga, ao ouvir tais notícias, soprou tristes ciscos nos meus olhos. E eu chorei.

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