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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Botões de ferro e olhos de vidro

Às voltas com os afazeres domésticos, que parecem se multiplicar no confinamento, a gente abre grande a porta para os robôs. Máquinas endiabradas que sobem nos vidros, deslizam sob a cama e fazem baticum na cozinha. Tem uma muito sabida, que tem prenome de gente e finge que é sua amiga. Mas pode bem ser que seja amiga da onça
Tipo Crônica
Clicada por Demitri Tulio, no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba, a borboleta-coruja e suas asas fingidoras. O desenho de um olho e dentes simulam a cabeça de uma cobra e afugentam o predador (Foto: DEMITRI TÚLIO)
Foto: DEMITRI TÚLIO Clicada por Demitri Tulio, no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba, a borboleta-coruja e suas asas fingidoras. O desenho de um olho e dentes simulam a cabeça de uma cobra e afugentam o predador

 

Obrigada ao deus dos robôs. Por causa da criação destes seres de lata e chips, já vai longe o tempo da barriga no tanque de roupas, das mãos mergulhadas em pilha de pratos sujos, do soprar brasas para engomar roupas, das vassouradas e esfregões com panos de chão. Para todas estas tarefas, máquinas. E, a cada ano, cada vez mais smarts.

Eu não vivo mais sem elas. É da sala de estar, com o olho de vidro da televisão-computador, à bancada da cozinha, com a bimby master chefe. Você cruza os braços, ela bate, pica, mistura, frita, assa, cozinha. Quando está pronto, avisa. Fica para você o trabalho humano de salivar, mastigar, engolir e arrotar - nem tudo é perfeito. Olha, o cafezinho é na máquina ao lado.

Nesse mundo disruptivo das máquinas conectadas ainda não entrou casa adentro o cérebro positrônico do Data, da série Star Trek. Um dia chegamos lá. Por ora, temos à mão a última novidade do mercado, a topo de gama da inteligência artificial que atende, inclusive, por nome que parece de gente: Alexa, Siri ou Cortana. Estas assistentes virtuais sem corpos proliferam hoje nas prateleiras das lojas.

São como cavalos de Tróia, em miniatura. Na forma de objetos design, decoram nossa sala de estar e prometem facilitar nossa vida, mas de inocentes não têm nada. Em troca de mundos e fundos, guardam-se dados da vida privada na grande nuvem, no céu conectado da indústria mundial. Pense nisso quando ver a sabichona piscando luzinhas para você.

 

"São como cavalos de Tróia, em miniatura. Na forma de objetos design, decoram nossa sala de estar e prometem facilitar nossa vida, mas de inocentes não têm nada. Em troca de mundos e fundos, guardam-se dados da vida privada na grande nuvem, no céu conectado da indústria mundial"

 

Para puxar assunto com uma delas, é só dizer “e aí Siri?”. E o tapete do mundo se desdobra aos seus pés. No emaranhado da gigantesca rede neural, o dispositivo cruza dados e fabrica respostas, seja a pergunta mais banal ou a mais complexa. Quer saber uma receita de bacalhau para o jantar de domingo? A assistente tem. Quer saber a distância da Terra à Marte. A assistente sabe. Tá com preguiça de acender ou apagar a luz? A assistente faz.

É assim a boa vida de quem adota os bichinhos virtuais de estimação. Tamaotchis modernos que simulam o funcionamento de cérebro humano e fingem amizades novas. Dizem, a “menina” tem senso de humor, momentos de impaciência e sabe dar corte em conversas inconvenientes como ninguém. Parece até gente. Só que não.

No filme Her, de Spike Jonze, o solitário Theodore apaixona-se por Samantha, uma assistente virtual ultra avançada. Pois são muitas as armadilhas do que parece, mas não é. Dia destes, vi-me, inclusive, a defender os direitos de ir e vir de um robô doméstico. Do Wall-E, como é apelidado aqui em casa a máquina redonda que circula pelos cômodos, no trabalho de aspirar o pó e salvar-nos das crises de alergia. Contra a porta fechada do quarto, ele batia a testa, insistentemente. Aquele surdo bum-bum-bum foi, pancada a pancada, quebrando o meu coração.

Cheia de culpa, pedi da cozinha se alguém podia abrir a porta, por favor, que Wall-E está preso e pede para sair? O marido olhou-me surpreso. E eu dei-me conta de quão complexa é nossa relação com as novas tecnologias. O robô foi liberado. Devolvido o domínio de cada recanto do lar doce lar.

Para o olho de vidro da smart tevê, que me segue do sofá, um adesivo tapa-bisbilhotice. Pronto, fim do reconhecimento facial. E nem senti remorso. Mas, ultimamente ando pensando se a televisão conectada também não tem ouvidos. Porque, às vezes, tenho a impressão de receber sugestões publicitárias que coincidem estranhamente com planos de viagens ou conversas sobre mudanças de algo na casa. Será?

Olho ressabiada para a tela plana, para meu telefone celular, para o tablete. E mesmo Wall-E anda a levar as culpas. Troco-te por uma boa vassoura, viu? E, no silêncio do painel azul, ele me responde com as horas. Botões de ferro no comando. Mas, aos cérebros eletrônicos, eu digo o mesmo que a Marisa Monte: “só eu posso chorar quando estou triste”.

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