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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Robôs doutores e garotas propaganda, as máquinas já estão no comando

Durante a pandemia, eles multiplicaram-se ainda mais. E você nem viu. Softwares inteligentes que passam o tempo do confinamento a te enviar e-mails, a conversar contigo em sites, a selecionar teu currículo para o novo emprego, ou a te demitir, quando a produtividade anda baixa. Algoritmo, teu novo amigo ou inimigo?
Tipo Crônica
Papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva). Espécie da fauna brasileira muito perseguida por traficantes de aves. Ainda hoje, no mundo inteiro, compra-se o papagaio por causa de sua inteligência e capacidade de aprender e reproduzir a fala humana. Registro feito em Fortaleza-Ceará, no Cetas/Ibama (Foto: Demitri Túlio)
Foto: Demitri Túlio Papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva). Espécie da fauna brasileira muito perseguida por traficantes de aves. Ainda hoje, no mundo inteiro, compra-se o papagaio por causa de sua inteligência e capacidade de aprender e reproduzir a fala humana. Registro feito em Fortaleza-Ceará, no Cetas/Ibama

De conversa fiada na net com um robô. É que, no universo desmaterializado, Iana e eu falamos de igual para igual, somos quase amigas. Esta “brasileirinha”, metade algoritmo metade sereia, como ela se apresenta no quadradinho ao lado da tela, trabalha grátis, tempo integral e sem férias para a grande marca de alpargatas que, segundo o slogan, não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro.

No site da loja online, vai conquistando clientes e fãs. Aliás, ela e uns tantos outros chatbots, que ficaram famosos no Brasil e no mundo, pela simpatia, respostas rápidas e jogo de cintura. Se a gente não anda atento nessa vida, uma coisa assim pode até nos confundir. Porque, às vezes, eu sou capaz de jurar, ela é gente.

Eu sei, o mundo mudou. Sem nos darmos conta, colocamos os dois pés na era dos algoritmos. E nem foi assim de um dia para outro. É que andávamos distraídos com problemas do dia a dia. Mas, um dia a ficha cai. Desde quando eu venho teclando ou falando ao telefone com máquinas? Desde quando eu recebo e-mails de máquinas? Desde quando eu resolvo meus problemas com máquinas?

Nem falo aqui só dos garotos e garotas propagandas e super atendentes virtuais para as grandes marcas, como a descolada Iana, que passam o tempo a recomendar novos produtos, rastrear entregas, emitir segunda via de boleto e nota fiscal. Porque a nova geração de robôs anda ocupada com coisa bem mais fundamental, que impacta a nossa vida. E a gente nem sabe até que ponto.

Por exemplo, o bedelho matemático já entra na busca de alguém por um novo emprego, em muitas empresas. Manda o currículo, mas quem faz o primeiro filtro dos candidatos é um robô. Na França, classificam estudantes inscritos na plataforma de admissão para o ensino superior. Na Inglaterra, checam resultados de alunos e ajustam notas, criando um ranking nacional, o que implica a entrada, ou não, nas grandes escolas e universidades inglesas.

 

 

"Tanta tecnologia inteligente entremeada no que fazemos. E nem tudo são flores. Em palestras pelo mundo, a cientista de dados Cathy O’Neil alerta para os perigos dos algoritmos que, segundo ela, aumentam desigualdades e geram injustiças"

 

 

Imaginem o tamanho do quiproquó. Advogados de carne e osso devem andar ocupados com queixas e contestações de pais e trabalhadores. Conflitos que, aliás, podem vir a ser tratados por nada menos, advogados-robôs. No nosso país, eles têm já emprego garantido. Repare que, mesmo no mundo virtual, tem máquina com diploma na “mão”. Ah, se a Iana tivesse estudado mais!

Doutora Luzia foi a primeira robô-advogada da história do Brasil. Começou a carreira por cima, na Procuradoria Geral do Distrito Federal. Mas, por estas horas, deve estar sendo replicada para atuar também no setor privado. Bancos, por exemplo.

Pelo que se diz, a máquina doutora cospe centenas de petições por semana. Feito impossível para humanos advogados. No Tribunal de Contas da União, são as robóticas Alice, Sofia e Monica que ajudam no trabalho árduo da caça às fraudes. No Supremo Tribunal Federal, é o Victor que analisa recursos.

O saco de exemplos é sem fundo. Softwares inteligentes que, aos poucos e, ao que parece, de forma eficiente, vão substituindo gentes. Eu soube até que alguns robôs andam a escrever livros e compor músicas. Mas, no que toca à arte, nos vingamos: pelo menos por enquanto, o resultado não é digno de prêmio.

Tanta tecnologia inteligente entremeada no que fazemos. E nem tudo são flores. Em palestras pelo mundo, a cientista de dados Cathy O’Neil alerta para os perigos dos algoritmos que, segundo ela, aumentam desigualdades e geram injustiças.

É que estas máquinas não são nada neutrais. Baseadas em modelos matemáticos, concebidos por homens e mulheres, reproduzem preconceitos, equívocos e vieses humanos. Daí saem resultados sexistas, racistas, xenófobos. Para O’Neil, são os mais pobres que pagam o pato - analisados por máquinas, enquanto ricos têm tratamento pessoal.

Tem gente perdendo emprego porque foi etiquetado por robôs como “pouco produtivo”, sabia? Coisas assim dão um nó na minha cabeça, Iana. Até porque, ultimamente, nos sites que navego, ando tendo que provar por A mais B que eu mesma não sou robô. Ou sou?

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