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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Cheiros de passados engarrafados e visitas perfumadas a museus

Duas semanas passadas, falamos sobre o perfume que lembra a gasolina, já no banco de passageiros dos felizes proprietários, de uma certa marca de carro elétrico. Hoje, vou contar o que logo logo nos espera, nas salas dos grandes museus do mundo. Um spray com cheiros do passado, que promete nos catapultar numa viagem no tempo
Tipo Crônica
Na foto de Demitri Túlio, uma borboleta em um campo de lavandas, na região do Loire, França, no verão de 2013 (Foto: DEMITRI TÚLIO)
Foto: DEMITRI TÚLIO Na foto de Demitri Túlio, uma borboleta em um campo de lavandas, na região do Loire, França, no verão de 2013

É a vez dos narizes. Ou melhor dizer, do olfato. Isso porque uma equipe de pesquisadores europeus prepara maravilhas, e elas não tardam a chegar. Se tudo der certo, vamos ter de volta ao presente, pelo menos uma boa centena de cheiros do passado. Vidrinhos em spray que vão concentrar odores perdidos da história, a partir do século 16.

Uma simples gota no ar e bum, direto do túnel do tempo, por exemplo, o odor azedo das ruas de algumas grandes capitais europeias, como Paris e Londres, em plena Revolução Industrial. Ou ainda a combinação de odores de pólvora de canhão, crina de cavalo, erva molhada e da água de colônia preferida de Napoleão, tudo isso em uma só fragrância, a da batalha de Waterloo, que aconteceu em 1815, na Bélgica. Eu que visitei o lugar do combate, atualmente um concorrido sítio turístico, ando a esfregar as mãos de impaciência.

Historiadores, linguistas, especialistas em odores, perfumistas e informáticos já caíram em campo. Junto com eles, robôs inteligentes que vão enfiar os narizes neurais em escritos e imagens produzidos em 4 séculos. Material já digitalizado, vindo dos quatro cantos da Europa. À medida que fazem a leitura dos textos e imagens, os algoritmos vão separando o joio do trigo. Reconhecem tudo o que faz menção a odores. Inclusive, descrições de emoções, associadas a este ou àquele cheiro.

Desse trabalho gigante, vão sair ideias para receitas de cozinha. É aí que se combinam e maceram-se centenas de ingredientes, afinam-se notas, até que saiam fórmulas que lembrem os tais cheiros pesquisados. Queria ser uma formiga para estar à beira do tacho, quando o perfumista gritará eufórico “eureca” – na mão, o cheiro fedorento de algo que nem ele e nem nós nunca sentimos na vida.

A primeira enciclopédia de cheiros do passado. Tão diferente das que eu tinha na infância: pesadas, volumosas, capas duras, cheias de textos e ilustrações. Salvaram-me infinitas vezes, nas minhas pesquisas escolares. E, se as rainhas Lelo e Conhecer mofavam na minha estante, esta coleção de vidrinhos tem já bilhetes de avião comprados. Deve ter já fila de museus a requerer seus préstimos. Pois, a ideia é combinar fragrâncias do passado com obras de arte.

 

"Sofisticada a conexão no cérebro que ativa lembranças, a partir de odores registrados, na vida. Assim, sem saber, fiz também minha enciclopédia pessoal de cheiros do passado. Íntima coleção onde o odor forte de jaca não tem boa associação. Mesmo se resta uma lembrança. E lembrança não se engarrafa"

 

Imagina só a situação. Aí está você, embasbacado, diante de uma obra-prima de um grande mestre da pintura. Tenta, com todas as forças, desvendar os segredos daquela paisagem, daquela natureza morta, daquela cena e de seus personagens, que olham fixamente de volta. De repente, um cheiro inesperado joga você direto na temporalidade da tela. O cérebro a dar voltas e você já com os dois pés no universo paralelo, do campo de girassóis de Van Gogh.

Já não era sem tempo. Porque os nossos narizes andavam mesmo em baixa. Principalmente depois da descoberta de que a anosmia, ou seja, a perda do olfato, é um dos principais sintomas do Covid. E a gente se lembrou disso no meio da dor. Da importância de sentir os cheiros do cotidiano, para a nossa qualidade de vida. Inclusive, fiquei sabendo, estão de novo em moda os kits de aromas naturais, feitos para treinar olfato. Duas vezes por dia, o sujeito afetado pela anosmia, faz sua ginástica de nariz.

Segundo as instruções, é cheirar por alguns segundos discos com, por exemplo, aromas de alecrim, casca de tangerina, pó de gengibre, folhas de oréganos, grãos de café, pétalas de rosas, eucalipto. De amigos, a notícia é de que leva tempo, mas resulta. Não tendo os discos, serve exercitar-se com o cheiro inconfundível de uma jaca aberta? Quem já sentiu não esquece jamais.

Na falta dos tais cheiros do passado – pelo menos 3 anos até fabricarem as amostras -, ando a paparicar o meu olfato. E nem é com os tais discos aromáticos. Mas, com casuais gatilhos de memória que encontro por aí, no dobrar de uma esquina. Uma florzinha perfumada lembra outra, no quintal lá de casa, em Fortaleza. Uma sardinha na brasa, no restaurante aqui do lado, me faz salivar de outros peixes, na minha infância. E quando eu vou ao mar, e encho os pulmões de iodo e ar salino, já não estou em Portugal, mas à beira de outra praia, em Almofala, no Ceará.

Sofisticada a conexão no cérebro que ativa lembranças, a partir de odores registrados, na vida. Assim, sem saber, fiz também minha enciclopédia pessoal de cheiros do passado. Íntima coleção onde o odor forte de jaca não tem boa associação. Mesmo se resta uma lembrança. E lembrança não se engarrafa. E um robô inteligente última geração acabou de tomar nota, para um próximo projeto.

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