Foto de Boris Feldman
clique para exibir bio do colunista

Boris Feldman é mineiro, formado em Engenharia e Comunicação. Foi engenheiro da fábrica de peças para motores Metal Leve e editor de diversos cadernos de automóveis. Escreve a coluna sobre o setor automotivo no O POVO e em diversos outros jornais pelo país. Também possui quadro sobre veículos na rádio O POVO/CBN

Boris Feldman automóveis

Cinco casamentos não abençoados

Serviço "casadinho" é pura empurroterapia de algumas oficinas mais preocupadas com o faturamento do que com a ética profissional
Tipo Opinião
Pneus são como remédio: podem perder a validade até sem nenhum uso (Foto: Chico Alencar/O POVO)
Foto: Chico Alencar/O POVO Pneus são como remédio: podem perder a validade até sem nenhum uso

Existem muitos componentes do carro com vida útil limitada. Expiram pelo desgaste, quilometragem ou tempo. E devem mesmo ser substituídos. Entretanto, algumas oficinas aproveitam a chance para "engordar" o faturamento com outro serviço desnecessário. Bom para ela, ruim para o bolso do motorista.

Discos + Pastilhas - Como se reduz a velocidade do carro? Com pastilhas pressionadas contra discos ou lonas contra tambores. Como o sistema funciona por atrito, sua vida é limitada. Duram menos nas rodas dianteiras, onde o freio exerce maior esforço. Pastilhas ou lonas das rodas traseiras têm maior durabilidade.

Quando as pastilhas devem ser substituídas, alguns mecânicos recomendam a troca automática dos discos. Mas não é bem assim, pois sua durabilidade é muitas vezes maior que a das pastilhas. Mas, eventualmente, eles precisam ser retificados ou substituídos. Pois as pastilhas se atritando contra eles, podem provocar pequenos sulcos que, dependendo da profundidade, exigem um "passe" (retífica) do disco. Também um pequeno empeno pode exigir mesma solução.

Mas existe uma espessura mínima do disco: se for necessária uma retífica ainda mais profunda, a solução é substituí-los.

Motorista desleixado também provoca a troca do disco: basta não realizar a revisão dos freios a cada 10 mil km, para que as pastilhas se desgastem até o "osso" e gerar um atrito de sua base metálica com o disco, danificando-o.

Pneu + válvula – Pneus são como remédio: podem perder a validade até sem nenhum uso. Mas as válvulas (ou bicos) por onde são calibrados, possuem vida útil maior e não precisam ser – simultaneamente – substituídas. Até porque é fácil perceber – por pequenas fissuras – ser necessária sua troca.

Correia + rolamento - Essa é uma das mais controvertidas empurroterapias, pois chegou a constar nos procedimentos recomendados pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Mas, ao perceber que nenhuma fábrica (com inexplicável exceção da Renault) sugeria a troca do rolamento do tensionador da correia dentada junto com a própria, a ABNT entendeu a falta de propósito de se substituir o rolamento sem um desgaste aparente e eliminou-a de suas normas. Afinal, um rolamento de aço, não submetido a um enorme esforço como outros no carro (os de roda, por exemplo) e que resistem centenas de milhares de quilômetros, deve ter condições de durar bem mais que uma correia de borracha...

Porém tanto se difundiu a prática que algumas fabricantes de peças já embalam e vendem o conjunto correia dentada e rolamento, mesmo depois de a ABNT ter eliminado este procedimento.

Aliás, oficinas que praticam essa pi-ca-re-ta-gem fazem de conta ignorar que o rolamento da correia de alguns dos motores da Ford suportam os mesmos 250 mil km que duram suas correias dentadas banhadas em óleo.

E então, como explicar que os outros não passem dos 50 mil km?

Alinhamento + balanceamento – As rodas dianteiras (em alguns modelos, também as traseiras) devem estar corretamente posicionadas e vários parâmetros – que variam de carro para carro - são estabelecidos pelos fabricantes: convergência, cambagem e cáster. O que define se estas medidas estão corretas é o alinhamento da geometria de direção, daí a importância de levar o carro para conferi-las de acordo com a recomendação da fábrica. Em geral, a cada 10 mil km. Ou depois de ter sido vítima de uma dessas crateras asfálticas. Que podem interferir e desalinhar a suspensão conforme a violência do impacto.

Entretanto, como existem oficinas especializadas do tipo "Alinhamento e balanceamento", sempre se tenta convencer o dono do carro que necessita do alinhamento a autorizar também o balanceamento das rodas. Outra prestação de serviço sem nenhum relacionamento com o alinhamento, embora se tente provar uma (inexistente) conexão entre ambos.

Balanceamento de rodas só se faz ao se perceber uma trepidação no volante quando o carro atinge uma certa velocidade. E desaparece quando se acelera um pouco mais. Quando a trepidação não é específica do volante, mas em todo o automóvel, é provável que o desbalanceamento seja nas rodas traseiras.

Disco de embreagem + Platô – A troca suave de marchas num carro com câmbio manual se dá pela atuação do sistema de embreagem. A força do motor é transmitida para a caixa de marchas pelo disco de embreagem pressionado contra o volante. Assim como as pastilhas de freios, o disco também tem um revestimento que se desgasta pelo atrito e deve ser substituído. Mas, nem sempre é necessário trocar todo o kit, constituído do disco, platô (ou chapa de pressão) e rolamento, pois houve desgaste apenas do disco.

Entra aí a conversa do mecânico para convencer o dono do carro a trocar todo o conjunto. É a mesma conversa fiada do rolamento/correia dentada: já que foi desmontado todo o kit, vale a pena aproveitar para trocar todos os componentes. Mas é sempre possível comprar somente o disco ou até, diante da dificuldade de encontrá-lo no comércio, apenas substituir seu revestimento. Existem também discos remanufaturados (pelo próprio fabricante) ou recondicionados (por oficinas especializadas).

 

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais