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Boris Feldman é mineiro, formado em Engenharia e Comunicação. Foi engenheiro da fábrica de peças para motores Metal Leve e editor de diversos cadernos de automóveis. Escreve a coluna sobre o setor automotivo no O POVO e em diversos outros jornais pelo país. Também possui quadro sobre veículos na rádio O POVO/CBN

Boris Feldman automóveis

"Ninguém te conta, mas você precisa saber". (Será?)

A "legião de imbecis", segundo Umberto Eco, continua na ativa e divulgando dicas perigosas para o motorista
Tipo Opinião
Gasolina tem preço médio próximo
a R$ 6 no Ceará  (Foto: Barbara Moira/O POVO)
Foto: Barbara Moira/O POVO Gasolina tem preço médio próximo a R$ 6 no Ceará

Este é o título do vídeo “educacional” que está no “Tik Tok”. Uma dica sem nenhum embasamento técnico nem empírico para melhorar o desempenho do automóvel. O “tiktokeiro” encosta no posto, pede para abastecer o tanque com tantos reais de gasolina e mais alguns litros de diesel S10.

E relaciona as inúmeras vantagens da prática. Afirma que o percentual de diesel (10 ml por litro de gasolina) aumenta a octanagem do combustível (dá uma “octanada” – diz ele), limpa os bicos injetores, reduz o consumo e se dá ao luxo de precisar valores: o carro passa a rodar 13 km em vez de 11 km por litro.

Estava certo o escritor e filósofo italiano Umberto Eco (“O Nome da Rosa”, entre outros), pois disse em 2015 que “as redes sociais deram voz a legião de imbecis”. Que até então tinham sua manifestação limitada às mesas de bares e botequins, mas ganharam palanque internacional com a internet.

Notícias e informações estapafúrdias (e até dicas que podem prejudicar o carro, como esta) já circulam há anos pela web e as voltadas para motoristas estão entre as mais difundidas. Não me esqueço de uma delas - viralizou na época – que exibia a foto de uma inundação num grande pátio com dezenas de automóveis, todos com água pela janela e quase impossível de se determinar a marca.

O texto que acompanhava a imagem dizia “Onde está a imprensa corrupta brasileira que não divulga esta foto? Ela é toda vendida e não tem coragem de revelar o estoque da Volkswagen debaixo d’água no pátio de sua fábrica em São Bernardo do Campo! Claro que a fábrica vai recuperá-los e daqui a algumas semanas estarão todos à venda nas concessionárias VW do Brasil. E coitado de quem comprá-los”.

A foto era verdadeira. Mas não era nem da Volkswagen, nem no Brasil. Mas de uma fábrica na Europa.

Quais as consequências de se acreditar na dica do diesel?

O diesel, apesar de também ser um combustível para motor, tem propriedades completamente diversas da gasolina ou do etanol. Ele não tem octanas, mas cetanas.

Que bicho é esse?

A octanagem do combustível para um motor Ciclo Otto (gasolina, etanol ou gás, com combustão por centelha) define quanto ele suporta de pressão e temperatura antes de se queimar espontaneamente. Então, quanto maior a octanagem, tanto melhor, pois não haverá a combustão espontânea da mistura ar/combustível no cilindro. Ou seja, antes do momento correto da faísca na vela. É o fenômeno da pré-ignição.

E evita uma outra combustão irregular, a detonação, chamada popularmente de “batida de pino”. Na verdade, nenhum pino bate, mas é o ruído provocado pelo choque de duas ondas de queima, a iniciada de um lado pela faísca na vela e a outra gerada pela queima espontânea do “resto” da mistura.

O motor diesel funciona de outro jeito. Em vez da faísca na vela, a queima se dá pelo excesso de temperatura e pressão quando o pistão sobe no cilindro. Ou seja, provoca-se a combustão sem faísca, exatamente o que se evita no motor Ciclo Otto. E o que define a facilidade da combustão do diesel é sua cetanagem. Que, pode-se dizer, é o contrário da octanagem.

Então, o que pode acontecer quando se mistura diesel na gasolina? Sua octanagem despenca e são enormes as chances de ocorrer a pré-ignição, ou seja, a combustão da mistura antes do pistão chegar lá em cima (ponto morto superior). Ora, se o pistão está subindo mas acontece, no meio do caminho, a explosão da mistura ar/combustível, ele vai receber um poderoso contragolpe, uma força contrária ao seu movimento. Que, em geral fura ou quebra sua cabeça, destruindo o motor. E o problema nem avisa que vai acontecer, pois, ao contrário da detonação, a pré-ignição não faz ruído (o toc-toc-toc chamado de batida de pino”). O motorista só percebe tarde demais, quando o motor vai para o espaço.

Foi o que ocorreu no ano passado com alguns motores da nova geração do Onix: uma pré-ignição que os detonava e chegava, em alguns casos, a incendiar o carro.

Cuide-se, pois assim como esse do diesel, existem outros “milagres” na internet para aumentar desempenho e reduzir consumo e que podem danificar o motor. Querosene, naftalina, óleo 2T ou aditivo tipo booster na gasolina estão entre eles...

 

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