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Boris Feldman é mineiro, formado em Engenharia e Comunicação. Foi engenheiro da fábrica de peças para motores Metal Leve e editor de diversos cadernos de automóveis. Escreve a coluna sobre o setor automotivo no O POVO e em diversos outros jornais pelo país. Também possui quadro sobre veículos na rádio O POVO/CBN

Boris Feldman automóveis

Troca do tensor simultânea à da correia dentada é pi-ca-re-ta-gem?

Fábrica de rolamentos afirma não ser sempre necessária a troca conjunta dos dois componentes
Alguns mecânicos alegam que o rolamento pode pifar após a substituição da correia e o dono do carro arcar com uma nova mão de obra, que poderia ser evitada com a troca conjunta (Foto: Camila de Almeida/ O POVO)
Foto: Camila de Almeida/ O POVO Alguns mecânicos alegam que o rolamento pode pifar após a substituição da correia e o dono do carro arcar com uma nova mão de obra, que poderia ser evitada com a troca conjunta

Critiquei as oficinas que defendem a nem sempre necessária troca do rolamento junto com a da correia dentada. A chamada “venda casada”.

Uma controvérsia que surgiu desde que se introduziu a própria correia dentada em substituição à corrente metálica.

Vantagem da correia dentada? É mais barata. Mas os fabricantes alegam ser mais silenciosa. Embora a corrente metálica não seja ruidosa a ponto de incomodar. Mantida na maioria dos carros.

Desvantagem? Ao contrário da metálica, exige trocas frequentes com determinada quilometragem, em geral entre 50 mil e 100 mil km. Pior: se o veículo roda em ambiente contaminado com pó de minério ou outro abrasivo, o desgaste é acentuado e ela se rompe antes mesmo do prazo previsto de substituição. E, em muitos motores, correia rompida é prejuízo na certa, pois as válvulas “atropelam” os pistões.

Fábricas que mudaram para a correia dentada já voltaram a projetar motores com a metálica, tantos foram os questionamentos, principalmente as dificuldades dos frotistas.

A controvérsia? Alguns mecânicos alegam que o rolamento pode pifar logo depois da substituição da correia e o dono do carro arcar com uma nova mão de obra que poderia ser evitada com a troca conjunta. E afirmam estar seguindo uma norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Mas imagina-se que um rolamento de aço, não submetido a impactos nem esforços axiais (laterais) deve ter vida útil muitas vezes superior à de uma correia de borracha. Tanto que, em motores Ford Ka e Chevrolet Onix, onde são banhadas em óleo, correias e rolamentos duram mais de 200 mil km.

E a ABNT? Ela tinha realmente publicado a norma NBR 15759 (em 2009) recomendando a troca do rolamento. Observamos - na época - para esta associação, que nenhuma fábrica (exceto a Renault) incluía este procedimento em seu manual de serviços. Ela acatou a sugestão e modificou o texto, recomendando o procedimento indicado pela fábrica, ou seja, inspecionando o rolamento.

Em 2011, voltou a modificar a norma apesar de manter – estranhamente – sua numeração e recomendou novamente a troca dos agregados da correia.

Mas, diante de críticas de alguns mecânicos que defendem a troca simultânea, decidi consultar uma das mais prestigiadas e famosas fábricas de rolamentos do mundo, a Schaeffler. Que os produz no Brasil sob as marcas FAG e INA. Pensei que sua equipe técnica poderia ficar “em cima do muro” pelo interesse da empresa em faturar seus produtos. Mas foi objetiva e de uma ética exemplar.

Afirmou que:
- o padrão de homologação de rolamentos para correias é de 300 mil km. Mas pode haver, segundo ela, uma variação para mais ou menos de acordo com as condições operacionais, horas de funcionamento do motor com o carro parado (congestionamentos) etc;
- estatísticas de campo afirmam que 99% dos problemas de desgaste prematuro dos rolamentos de tensores das correias dentadas são provocados pelo ajuste irregular quando de sua montagem;
- só recomenda a troca simultânea do rolamento em motores com alta quilometragem e que não se conhece o histórico. Ou seja, se o carro já rodou, digamos, 200 mil km e a correia deve ser substituída sem que se conheça sua vida útil e a do rolamento, sugere a troca de ambos. Ou quando a inspeção visual/auditiva do rolamento indique esta necessidade.

Então:
- a ABNT recomendou em 2009 a troca do rolamento simultaneamente com a da correia, mas já alterou duas vezes a norma, em 2010 e 2011;
- estes rolamentos são projetados para durar cerca de 300 mil km, mas em testes de bancada. Na prática, a durabilidade pode variar para mais ou para menos. Como duram acima de 200 mil km em alguns motores (Ford e Chevrolet, por exemplo), pode-se colocar esta quilometragem como a mínima de sua durabilidade;
- fadiga prematura dos tensores/rolamentos de correia dentada são provocados em 99% dos casos, segundo os técnicos da Schaeffler, por ajuste irregular de sua tensão.

Aliás, muitos mecânicos até desconhecem que, se o rolamento estiver no lado tenso da correia, deve-se girar o virabrequim no sentido contrário antes do ajuste.

Mas como explicar de o rolamento ter pifado logo depois de a correia ter sido substituída, com prejuízo para o dono do carro?

Está explicado por quem o fabrica: o rolamento é homologado, em testes de bancada para durar teoricamente até 300 mil km. Ou menos, na prática e de acordo com as condições operacionais. Há motores em que duram mais de 200 mil km. Casos de desgaste prematuro dos rolamentos são provocados, segundo ela, pelo próprio mecânico ao ajustar irregularmente a correia.

Então, a venda casada correia/rolamento é ou não uma pi-ca-re-ta-gem?

 

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