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Escolhas da escrita e leituras desconfiadas
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Linguista e semioticista, professora da Universidade Federal do Ceará, com doutorado na Universidade de Liège (Bélgica) e pós-doutorado na Universidade de São Paulo

Escolhas da escrita e leituras desconfiadas

Em um artigo sobre a Venezuela, a Folha de São Paulo trata Delcy Rodríguez, a vice-presidente, como líder e Nicolás Maduro como ditador, sendo que ambos são fruto do mesmo movimento e do mesmo processo eleitoral
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Nicolás Maduro com a agora presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodriguez, em foto de 23 de janeiro de 2019 (Foto: LUIS ROBAYO / AFP)
Foto: LUIS ROBAYO / AFP Nicolás Maduro com a agora presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodriguez, em foto de 23 de janeiro de 2019

Eu sou linguista e semioticista, o que me põe sempre às voltas com as questões do sentido nos textos e nos discursos. Amigos de fora do universo acadêmico têm a certeza de que tudo o que esbarra na linguagem me diz respeito. Foi assim que recebi esses dias um vídeo de uma pessoa que se encantava com a riqueza do português, que faz a diferença entre "ser" e "estar", em contraste com o inglês e o francês que não conhecem essa diferença. Adoramos essas idiossincrasias: "nenhuma língua tem a palavra saudade!"

De minha parte me fascina aquilo que as línguas não dizem, aquilo que pode permanecer não-dito, ambíguo. Estou interessada nos momentos que dá para deixar em suspenso se a pessoa é ou está bonita. Deixa ela pensando até onde vai o elogio...

O português também vai ter suas próprias ambiguidades. Temos, por exemplo, uma única palavra para alugar ou emprestar e fica por vezes em aberto a quem pertence o objeto em circulação. Tudo isso, em geral, se resolve no contexto. Não passamos pela vida indecisos se o apartamento é de fulano ou sicrano. Mas que possamos escolher quando expressar o quê é um grande poder.

A língua oferece muitas possibilidades de expressão e o que mais temos na língua é escolha. No fim, como escolhemos nos exprimir diz muito de como construímos o mundo. E isso é tão verdade que há uma curadoria de termos permitidos e proibidos em eventos políticos importantes. Estou me referindo, é claro, à invasão da Venezuela pelos Estados Unidos (note que escolhi invasão).

Ficou patente a questão com notícias (rumores?) de que a BBC teria banido o termo "sequestrado" (kidnapped), preferindo termos como "capturado" (captured) e "apreendido" (seized). No Brasil, reporta-se que a Agência Brasil prefere o termo "capturado" a "sequestrado". Como aponta um artigo do Ouvidoria Cidadã EBC, "'capturar' ou 'prender' dá um sentido de legalidade à ação, enquanto 'sequestrar' implica uma ação ilegal." Em um artigo sobre o tema, a Folha de São Paulo trata Delcy Rodríguez, a vice-presidente, como líder e Nicolás Maduro como ditador, sendo que ambos são fruto do mesmo movimento e do mesmo processo eleitoral.

Nada disso trata da minha ou da sua posição sobre o tema. A minha está aqui pouco desenvolvida e a sua só saberei se você escolher responder a este artigo. Trata-se antes de entender que, se a língua está à disposição de seus usuários, com todas as possibilidades que ela oferece, ambiguidades e precisões à escolha, é preciso entender também que cada texto que lemos não é ingênuo, cada texto que lemos escolhe uma posição e esconde outras. É preciso ser responsável pelo que se escreve e se diz, mas principalmente é preciso ler tudo com um grão de sal, com alguma desconfiança.

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