Linguista e semioticista, professora da Universidade Federal do Ceará, com doutorado na Universidade de Liège (Bélgica) e pós-doutorado na Universidade de São Paulo
Linguista e semioticista, professora da Universidade Federal do Ceará, com doutorado na Universidade de Liège (Bélgica) e pós-doutorado na Universidade de São Paulo
Há pouco mais de um mês, Orelha, um cachorro comunitário de Florianópolis (SC), foi encontrado agonizando, vítima de violência extrema. Após a investigação de alguns adolescentes suspeitos, um deles foi indiciado e teve sua internação solicitada pela Polícia Civil. O caso gerou grande comoção nas redes sociais e, nesse contexto, é tentador dizer dos responsáveis por essas agressões que são doentes.
No entanto, alcunhas que individualizam e patologizam esses comportamentos prestam um grande desserviço. De um lado, dizer que o autor de um crime dessa monta é doente, que agiu conforme uma alteração psíquica, livra a cara, ou ao menos atenua a gravidade de seus atos. Sugere que ele precisa de cuidado e não de punição para que não volte a reincidir e ameaçar a sociedade que de fato feriu. Por outro lado, a associação desse tipo de violência com o sofrimento psíquico acentua o estigma ligado aos transtornos mentais.
Mas há ainda outra dimensão a discutir. A individualização da questão, que vem com a explicação patologizante do comportamento, camufla as estruturas sociais que permitem que isso aconteça. Não à toa, a violência desse caso se dirige a uma criatura inofensiva e indefesa; há aí uma assimetria de poder e um prazer na violência contra o mais fraco. Há também a convicção de que o agressor não precisará prestar contas com o que fez. Nesse sentido, veja que três adultos foram também indiciados por coagir uma testemunha do caso. O adolescente indicado como suspeito foi viajar para fora do país em meio às investigações. Todas medidas que visam não responsabilizar o possível agressor, mas evitar que sofra as consequências de seus atos.
A comoção social em torno do caso parece ter surtido efeito e há forte mobilização para que se faça justiça, mas nos perguntamos quão longe pode ir essa justiça. O caso de Orelha ainda está em andamento, mas alguns talvez se lembrem de que, quase 30 anos atrás, 4 jovens foram condenados pelo homicídio de Galdino, indígena pataxó, em Brasília (DF). Muito se fala de que essas condenações vão "estragar a vida" de jovens "promissores" - como se não fossem suas próprias ações que levaram a isso. O fato é que os 4 são hoje funcionários públicos, com altos salários. As consequências não parecem assim tão duradouras.
Enfim, nos apressamos em dizer que esses comportamentos não têm nenhuma relação com pessoas "normais", porque é assustador nos dar conta que o ser humano é extremamente capaz de cometer crueldades. E as medidas que evitam responsabilizar os agressores ou as parcas consequências que sofrem são parte de uma socialização que dá margem a essas ações. Enfrentar a questão é o caminho para a responsabilidade por atrocidades desse tipo.
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