Chico Araujo é cearense, licenciado em Letras, professor de Língua Portuguesa e de Literatura brasileira
Chico Araujo é cearense, licenciado em Letras, professor de Língua Portuguesa e de Literatura brasileira
A caminhada na areia da praia trouxe em passos contrários o casal e seu cachorrinho. Uma graciosa elegância de andar em passinhos curtinhos e apressadinhos, cheio de sorrisos respirando prazer.
Quase lado a lado a mim, as feições daquele cidadão que me olhava fizeram, do passado, renascer o olhar e o sorriso de um dos amigos viajados naquele tempo de adoecimento mundial. Coletividades, comunidades em todo lugar sob o medo do acometimento de mortes, principalmente onde não se quis empenho para o combate adequado à doença se espalhando.
Ao susto, meu sorriso rascunhou um cumprimento feito prece, elevado a ele, na expectativa de que me visse e ouvisse de lá de onde ele está. Fico na sensação de que sorriu também, ele acostumado ao mar, às braçadas nele e às caminhadas pela areia. Acostumado a nadar no mar, o corpo atlético não teve forças para enfrentar a extenuação que o abateu de maneira inclemente.
Penso, sim, que do lugar onde se encontra, naquele momento ele me olhou, acenou, sorriu. Prossegui. E com os pés já aos beijos com as brandas ondas de beira-mar me vi desfiando histórias guardadas nas dobras do tempo. Estamos sempre acumulados. Sempre repletos. Mesmo sob chaves com poderes encarcerantes.
Às vezes as chaves giram e as fechaduras transbordam memórias. Em qualquer tempo, em qualquer lugar. Dessa vez a onda veio e inundou os pensamentos de lembranças. Talvez não houvesse poesia, se não acontecesse da alma, do espírito, do corpo se amalgamarem em versos, a maré chegando, lavando e purificando tudo.
Que palavras servem para escavar o que se imagina soterrado? As que emergem sorrateiras do fundo do poço. Talvez tenha sido assim, despertadas pelo passar do casal e seu cãozinho, do sorriso recordado de quem já houvera partido. A praia de agora, tranquila, certamente, acordou a praia de vários momentos da infância, as crianças caçando nela as “baratinhas d’água”, os búzios, as pedrinhas lisas e de formas mais ou menos arredondadas que serviam para o jogo.
Naquela praia da infância, a lua permitia a procura dos siris na vasta faixa de areia umedecida, em que os passos ficavam marcando os caminhos corridos atrás dos crustáceos. Havia os pais, curtindo e sugerindo as atividades naquele passeio noturno rente ao mar jogando em todos uma brisa de felicidade. Havia as irmãs, havia o irmão e uma infinidade de prazeres vivenciadas pela família.
Nas praias da infância tinha a carretilha – o surf de quem não tinha prancha. Tinha o “bater um racha” pela areia frouxa. Tinha os carrinhos de picolés, a volta para casa de ônibus, o passar por debaixo da roleta sem precisar pagar passagem. Profundamente tinha amor em torno de tudo. Tinha paz. Nenhum encontro com a saudade, como agora.
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