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Rápida reflexão
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Chico Araujo é cearense, licenciado em Letras, professor de Língua Portuguesa e de Literatura brasileira

Rápida reflexão

A dinâmica do dizer e do receber outro dizer em diálogo possibilitado pelos Correios era marcada pela distância entre os remetentes e pelo tempo corrido em meio ao instante do envio da primeira missiva e a resposta gerada a ela
Tipo Crônica
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No tempo em que as pessoas escreviam cartas e as remetiam a outras escreventes, constituindo-se um processo de troca de informações, de afetos, de segredos, registros de vivências pessoais e secretas se faziam com naturalidade e profundidade, pois a amizade costumava ser o elo entre os dois extremos do processo da escrita.

A dinâmica do dizer e do receber outro dizer em diálogo possibilitado pelos Correios era marcada pela distância entre os remetentes e pelo tempo corrido em meio ao instante do envio da primeira missiva e a resposta gerada a ela, além das subsequentes outras cartas redigidas e trocadas sob a motivação unindo e aproximando quem não queria calar seu mundo interior.

Um universo profundo e pessoal costumava ser exposto em cartas a pessoas específicas, de total confiança, a ponto de se saber que quem a leria não divulgaria o que lera. Me lembrei disso e de outras coisas mais enquanto lia “Cartas para minha avó”, de Djamila Ribeiro, livro em que a escritora revela cartas que escrevera para sua avó, basicamente como forma de relembrar fatos determinantes de sua vida.

Em vários trechos há revelações impactantes, como essa: "Eu amava ser mãe, mas odiava o papel que a maternidade me impunha." A história de vida de Djamila Ribeiro é marcada por desafios, grandes necessidades, superação. A afirmação dela nessa passagem é fácil de entender, quando se sabe ter sido difícil a ela cuidar da filha, precisando resolver questões próprias bastante desafiadoras.

A passagem me fez relacionar a experiência da escritora ao que pensa e declara boa parte das mulheres hoje, afirmando não quererem gerar descendentes, abrindo mão da natureza à maternidade. Óbvio, o motivo de cada uma é o motivo de cada uma, os pretextos de Djamila não são os mesmos de outras mulheres; no geral, porém, a humanidade tem vivido essa perspectiva de as mulheres não desejarem ter filhos ou filhas.

Eu entendo que essa sensação de Djamila está presente em boa parte da população feminina contemporânea com idade adequada para a maternidade. Não posso dizer se há proporcionalidade, mas, às vezes, tenho a impressão de que mulheres jovens decididas a não ser mãe assumem, em contrapartida, a condição de serem tutoras de pets, principalmente cães e gatos.

Adquirem os animais, os levam para casa e os tratam como se fossem humanos, como se fossem, na verdade, bichos necessitados de tratamentos como se humanos fossem. Ao redor dessa opção, a indústria em torno dos pets, as ONGs voltadas à causa animal validam a mudança do costume, pois desenvolvem o poder de influenciar as sociedades com seus conceitos de cuidados aos animais, interferindo, inclusive, através de lobbys, em posicionamentos de legisladores nas casas legislativas.

Há leis fortes, bem desenvolvidas e consolidadas que protegem os animais, implicando, à sociedade, comportamentos e posturas protetoras até de animais sem donos, animais da rua, como se costuma dizer. No final das contas, a mudança que vem ocorrendo já há algum tempo certamente implicará no futuro, uma vez que o envelhecimento de gerações sem que haja outras mais jovens determinará o fim de ciclos naturais de existência humana.

O abrir mão à maternidade em algum momento da História gerará o silêncio de vozes, o calar de discursos de boa parte da humanidade; se encerrará a continuidade de descendências. Será bom isso?

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