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A redução da jornada de trabalho: um debate crucial
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Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará (2009), mestre (2012) e doutor (2016) em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFC. Apresentando interesse pela Sociologia Política e Ciência Política. Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem-UFC), atua como palestrante e analista político, colaborando com movimentos sociais, associações e imprensa

A redução da jornada de trabalho: um debate crucial

Reduzir o tempo de labuta não é "trabalhar menos", mas trabalhar melhor - e viver melhor. Esse debate ganha ainda mais força diante do avanço acelerado da tecnologia, especialmente da inteligência artificial
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O servidor público Anderson Fernandes, 48, aproveitou o desfile na Domingos Olímpio para fazer um protesto quanto à jornada de trabalho 6x1 (Foto: Lorena Louise/Especial para O POVO)
Foto: Lorena Louise/Especial para O POVO O servidor público Anderson Fernandes, 48, aproveitou o desfile na Domingos Olímpio para fazer um protesto quanto à jornada de trabalho 6x1

A redução da jornada de trabalho voltou ao centro do debate público - e não por acaso. O tema, que durante décadas foi tratado como pauta sindical defensiva ou promessa distante, hoje reaparece ancorado em evidências técnicas, transformações tecnológicas e uma mudança concreta na forma como o trabalho se organiza no século XXI. A experiência internacional ajuda a iluminar esse caminho.

O México, por exemplo, avançou recentemente na redução da jornada semanal, combinando a medida com ganhos de produtividade e melhoria nas condições de trabalho. O dado político relevante aqui não é apenas a mudança normativa, mas o reconhecimento de que longas jornadas deixaram de ser sinônimo de eficiência econômica.

As razões para esse movimento são múltiplas e bem documentadas. Do ponto de vista da saúde pública, jornadas extensas estão associadas ao aumento de doenças ocupacionais, transtornos mentais, absenteísmo e queda de produtividade. Socialmente, ampliam desigualdades, especialmente para mulheres, que acumulam trabalho produtivo e reprodutivo.

Reduzir o tempo de labuta não é "trabalhar menos", mas trabalhar melhor - e viver melhor. Esse debate ganha ainda mais força diante do avanço acelerado da tecnologia, especialmente da inteligência artificial.

A automação de tarefas repetitivas, o uso de algoritmos e a digitalização de processos ampliam a capacidade produtiva sem a necessidade de expandir proporcionalmente a jornada humana. Em termos simples: produz-se mais em menos tempo. Os jovens já compreenderam essa dinâmica. A pergunta política central passa a ser quem se apropria desse ganho - o capital apenas, ou a sociedade como um todo.

A pandemia foi um ponto de inflexão definitivo. O trabalho remoto, os modelos híbridos e a reorganização do tempo de trabalho mostraram, na prática, que estruturas antes consideradas rígidas eram, na verdade, escolhas políticas e gerenciais.

Nesse cenário, cabe aos governos assumir um papel mais ativo. Programas pilotos, experiências controladas no setor público e incentivos regulatórios no setor privado podem testar modelos de redução gradativa de jornada sem perda salarial, avaliando impactos sobre produtividade, bem-estar e custos.

Por fim, há uma dimensão claramente política nesse debate. A redução da jornada se consolida como uma bandeira estratégica dos campos progressistas, porque articula desenvolvimento econômico, justiça social e qualidade de vida. Em um mundo marcado pela precarização, ansiedade permanente e descredito das "relações CLT", discutir o tempo de trabalho é questionar o tipo de sociedade que se quer construir. O ponto central não é mais se a redução é possível, mas quem terá coragem de liderar esse processo!

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