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"Tic-tac, tic-tac...", sextou!
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É editor de cultura e entretenimento do O POVO. Sua coluna, publicada todos os dias, trata de economia, política e costumes a partir de personagens em evidência no Ceará, no Brasil e no mundo.

Clóvis Holanda comportamento

"Tic-tac, tic-tac...", sextou!

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Edmilson Filho volta aos cinemas em CIC - Central de Inteligência Cearense  (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Edmilson Filho volta aos cinemas em CIC - Central de Inteligência Cearense

É assim...

Acho super-charmoso essa turma que declara ser o "tempo o maior luxo" da contemporaneidade e até concordo, luto por cada segundinho livre possível na minha rotina.

Mas daí, vem a cena...

A pessoa comanda dez empresas (herdadas), tem 2000 funcionários, coordenados por 60 líderes no melhor estilo "rédea curta" e, numa quarta-feira qualquer, às 16 horas, após tomar um "capucci" e chegar absolutamente perfumado, descansado e leve, senta-se num "talk" (conversas em lojas chics), sem precisar olhar para o figurativo Patek Philippe no pulso e declara:

- O tempo é meu bem mais precioso. Tempo é o maior luxo do mundo atual.

Pura verdade verdadeira. Nota dez para ele!

Só caberia um pouco de sutileza, visão coletiva e NOÇÃO nesse posicionamento, afinal, quem pode se dar ao desfrute, hoje, de ter tempo sobrando ao bel-prazer?

Já pensou os funcionários do figurão, da jornada de trabalho 6 x 1 ouvindo, no corte do Instagram, esse depoimento?

Aliás, independentemente de postos na pirâmide do "manda quem pode e obedece quem tem juízo", quem consegue hoje viver o ócio, mesmo nas horas - contadas - de descanso, sem sentir uma pontinha de culpa?

Tenho um amigo, executivo alto escalão, que só viaja nas férias após uma semana de adaptação, como um animal quando precisa deixar o viveiro e voltar ao seu ambiente natural, já viram?

Certa vez, foi para uma praia paradisíaca, dessas de bacanas no sul da Itália, embarcou na primeira madrugada após o fim do expediente na firma para não perder um segundo dos 30 dias, Euro Summer, "scusa", periferia!

Pois bem...

Chegando lá, após fazer o check in no hotel, entrou em colapso, choque interno.

Ao se perceber dentro de um palacete histórico e de rara beleza, com vista para o azul turquesa do mar e uma garrafa de espumante de boas vindas, não soube o que fazer. Ficou por horas deitado olhando para o teto do quarto.

Onde estavam as planilhas? E as reuniões? E para quem vou demandar e mandar? De quem receberei ordens? O que farei com essa bebida e essa paisagem?

Resultado: passou 48 horas atônito, "sonambulando"...

A esposa, nessa altura, já postando o quarto "look do dia", peruérrima, e o quarentão de caldo. Depois foi se soltando..., mas com dificuldade. Havia um remorso involuntário mediante a possibilidade de parar para experimentar o puro prazer de viver.

E tem muito mais além disso no pacto coletivo que faz as engrenagens rodarem...

Para além dos fatores sócio-econômicos da realidade nacional, que não deixam brechas para grandes jornadas de folga entre os turnos laborais, segue em alta, no mundo "coach corporativo" (cuidado!), essa lógica de ultraprodutividade como caminho - certeiro, dizem eles - para a prosperidade.

Francamente... Acontece, sim!, mas não é a regra.

...Nesse campo das exceções, uma amiga de infância e o marido construíram, no suor, um patrimônio considerável por meio do comércio e da oferta de serviços.

O negócio só crescia e todo o dinheiro que eles juntavam o marido reinvestia nas empresas, sempre expandindo. Ela deu duro ao lado dele por 15 anos. Não havia tempo para o desfrute. Subiram uns dez ou mais degraus no orçamento familiar, mas a vida continuava igual ou pior ao período em que os dois se conheceram e eram empregados de terceiros.

Ela teve um câncer e conseguiu se curar, mas aproveitou as difíceis horas - sempre o imperativo tic-tac - de quimioterapia e do pós-operatório, quando se questiona os sentidos do ontem, do hoje e do amanhã, para passar a trajetória a limpo.

Conclusão: havia dinheiro, havia prosperidade, crescimento, números, mas faltava vida e ela, sentiu, na prática, que os dias passam, a única certeza é a do agora.

Pediu divórcio.

Ele ficou sem entender. Nunca tinha traído, todo o dinheiro que juntou reaplicou no negócio que era dos dois. Um homem correto, "do trabalho para casa", como se dizia antigamente.

"Quero ter vida", disse ela antes de fazer uma mala, bater a porta e sair de casa, para nunca mais. No carro, colocou "Canteiros", de Raimundo Fagner, gritando e chorando, de alívio bem naquele trecho: "tenho tido muita coisa, menos a felicidade".

Já ele, se recusou a deixar o imóvel, preso em seu coração material, pulsando unicamente pelo que é palpável, acumulável, capaz de ser contabilizado. Segue na mesma, juntando, acumulando, aumentando e contando...

Ela... bem, cumpriu a promessa, foi viver....está com um outro companheiro, se divertindo horrores, todo fim de semana, na Praia do Futuro e num chalé (ninho de amor) que o casal construiu num terreno no meio do nada - onde encontraram tudo - pelos confins do Eusébio.

É "que no balanço das horas tudo pode mudar", como cantava a banda Metrô.

Tic-tac, tic-tac....

Sextou... Flores.

FestÃO na serra: mais cenas...

Ainda repercutem as lembranças & lances da BIG festa de "50 10", do empresário Idezio Rolim, último fim de semana no Hotel Reserva Rio Negro, em Guaramiranga. Na coluna da terça-feira, narrei a noite. Seguem mais registros... Outras fotos em @pauseopovo.

Vide Pause

Em cartaz nos cinemas, "CIC - Central de Inteligência Cearense", novo filme do diretor cearense Halder Gomes com Edmilson Filho (foto) como protagonista. Dupla dinâmica fez história no audiovisual nacional com o sucesso de "Cine Holliúdy", mostrando que o humor e o dialeto cearensês são capazes de furar bolhas e levar entretenimento de qualidade a qualquer lugar do mundo. No programa Pause desta sexta-feira, recebo os dois dedicados e talentosos profissionais do audiovisual para uma conversa sobre a nova produção, carreira, cenário do cinema, dentre outros temas. A partir das 16h no canal O POVO do Youtube, com transmissão no facebook e no instagram do O POVO Online. Versões em áudio nos apps Spotify e Deezer. Promete!

 

Foto do Clóvis Holanda

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