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Daniel Maia é professor doutor de Direito Penal da Universidade Federal do Ceará (UFC), sendo também advogado criminalista e colunista semanal do O POVO

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Eu não consigo respirar

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A frase que dá título a essa coluna foi dita por George Floyd, um afro-americano que ao ser preso pela polícia de Minneapolis, no Estados Unidos, foi morto pelo policial que o estrangulava enquanto o mantinha imobilizado.

Logo após a morte de Floyd os protestos, embalados pela frase que virou jargão dos manifestantes e por pessoas se ajoelhando e deitando ao imitar a posição em que ele foi morto, se espalharam pelo mundo. Nos Estados unidos foram em grande parte violentos, contando com saques ao comércio, incêndio de viaturas e agressões a policiais, alguns dos quais, também nesse mesmo contexto, cometeram outras agressões contra os manifestantes.

A questão que se coloca aqui não é simplesmente o racismo ou a intolerância racial, nem tampouco os métodos equivocados e, por vezes, bárbaros que a polícia utiliza contra pessoas negras, mas sim como esse é um trauma insuperável na história da humanidade, em especial do Estados Unidos.

Tem-se que desde a cruenta Guerra de Secessão, que durou de 1861 a 1865, em que as tropas do Norte dos EUA duelam contra as do Sul, tendo como fundamento maior da batalha a questão do fim da escravidão, o país não conseguiu se livrar do rancor que essa guerra deixou.

Assim, se antes da Guerra de Secessão o preconceito e a intolerância racial se davam com fundamento na própria escravidão, em um ciclo eterno e retroalimentado de violência e submissão de negros aos brancos, após o confronto a tão sonhada, por Abraham Lincoln, unificação da nação, ocorreu em muito segmentos, menos no que diz respeito à tolerância racial.

De lá para cá diversos episódios de violência racial marcaram como cicatrizes o povo norte-americano. Martin Luter King a inumeráveis desconhecidos, como George Floyd, até mesmo ídolos do Esporte como o ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson estiveram no centro de casos envolvendo a questão racial na antiga colônia inglesa.

Na história recente norte-americana houve alguns lampejos de esperança de tornar o país um pouco menos intolerante, sendo o maior deles a eleição de Barack Obama, em 2008 e 2012. O popular primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos até que tentou, com seu carisma e com o seu discurso de “Yés, we can!” (Sim, nó podemos!) diminuir o fosso entre as raças, mas não, ele não pôde.

Assim, a história mostra-nos que o triste episódio da morte de George Floyd certamente não será o último a acontecer nas terras do Tio Sam, mas pelo menos terá o condão de nos lembrar que se não curarmos os traumas que assombram o passado de uma nação, ela terá um futuro torturante, sem respirar o ar da igualdade e fraternidade entre os seus. Que não esqueçamos disso.

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