Daniel Maia
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Daniel Maia é professor doutor de Direito Penal da Universidade Federal do Ceará (UFC), sendo também advogado criminalista e colunista semanal do O POVO

opinião
Opinião

As facções criminosas fazem o que querem no Ceará

As facções criminosas estão absolutamente dominando o Ceará e o Governo Estadual está inerte sobre o assunto.
Exemplos disso que estou aqui afirmando temos vários, a começar pelas cidades do interior, as quais em sua maioria, nem mesmo delegacia de polícia possuem. Pasmem, a maioria das cidades do interior do Ceará não tem Delegacia de Polícia Civil, um verdadeiro absurdo! Assim, como pode se falar em política de segurança pública eficiente?
Na verdade, essa total falta de estrutura tem proporcionado às facções criminosas, como a paulista PCC – Primeiro Comando da Capital, a carioca CV – Comando Vermelho e até mesmo a pequena, porém sanguinária facção cearense GDE – Guardiões do Estado, um terreno fértil para as suas expansões territoriais e comerciais. Hoje não há um município cearense que não tema tais grupos de bandidos.
Não podemos nos acostumar e achar isso normal!
Mas, não para por aí, a própria capital, Fortaleza, está sitiada, possuindo bairros em que se um morador desavisadamente atravessar a rua limite com outro bairro pode morrer, simplesmente pelo fato de que cada um dos bairros é dominado – a palavra é essa mesmo: dominado – por uma facção criminosa.
Não podemos nos acostumar e achar isso normal!
E por falar em residência, já denunciamos aqui nessa coluna os diversos casos dos refugiados urbanos, pessoas que são obrigadas a deixar suas casas por ordem das facções criminosas. Teve até um caso, no conjunto Metrópole II, em que um policial militar foi expulso de seu pequeno apartamento pelas facções. Vejam a que ponto chegamos!
Não podemos nos acostumar e achar isso normal!
O pior é que os exemplos não param e somente estão se agravando, como nos recentes casos de motoristas de aplicativos que foram mortos ou gravemente feridos por integrantes de facções que não admitem sequer que carros entrem em seus territórios sem baixar os vidros ou motoqueiros sem tirar o capacete. Enquanto isso o Governo Estadual ao invés de apresentar um plano de ação contra tal realidade, prefere se agarrar a números fantasiosos que tentam nos iludir de que a violência tem diminuído no Ceará.
Não podemos nos acostumar e achar isso normal!
Precisamos sair das nossas pseudos ilhas de segurança e conforto e encarar a dura realidade de que todos nós estamos reféns do crime organizado e termos a coragem de cobrar ações dos nossos governantes, tais quais: mais investimento na Polícia Civil, a qual está abandonada há muitos anos – a exemplo dos municípios que não tem nenhuma delegacia; uma política pública de investimento nos jovens e na educação integral de crianças, para tentar evitar que sejam recrutados pelas facções criminosas; investimento em tecnologia, a maneira mais fácil e barata de combater a criminalidade, isso não apenas na avenida Beira Mar, mas também nos bairros periféricos; e, principalmente, na revalorização das Polícias Civil e Militar, as quais são constituídas por verdadeiros heróis, que trabalham com tão precária estrutura enfrentando criminosos.
Não podemos nos acostumar e achar isso normal!
Enfim, não podemos achar normal que o Estado e as pessoas não possam sequer entrar em alguns locais das cidades ou que motoristas de aplicativos sejam queimados vivos enquanto tentam sustentar suas famílias. Isso, nem na Idade Média, era aceitável.
Não podemos nos acostumar e achar isso normal!

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