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Jornalista, é mestra em Estudos da Tradução (UFC), especialista em Tradução (Uece) e pós- graduada em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais (Estácio FIC). No O POVO, já atuou como ombudsman, editora de Opinião, de Capa e de Economia, além de ter sido repórter de várias editorias.

Daniela Nogueira linguagem e comunicação

"Cringe" e os neologismos à brasileira

A guerra geracional trouxe novamente à tona a discussão sobre a incorporação de termos e expressões de outros idiomas à língua portuguesa
Tipo Opinião
Até o uso dos emojis entrou na lista para qualificar as gerações (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Até o uso dos emojis entrou na lista para qualificar as gerações

O uso à brasileira da palavra “cringe” se expandiu nos últimos dias. O termo da língua inglesa ganhou força, principalmente nas redes sociais do País, dentro de uma disputa de gerações, que se dão o direito de definir o que é vexatório ou constrangedor. A guerra geracional teve início entre os norte-americanos e, em pouco tempo, ganhou a adesão dos brasileiros. 

Em inglês, “cringe” é um verbo, usado como “encolher-se”, seja de medo, seja de angústia, seja por outro sentimento negativo afim. Não há uma tradução direta para a língua portuguesa. Em uma versão livre, passamos a usá-lo como algo que cause vergonha.

De verbo lá, o “cringe” virou adjetivo cá. Assim, alguns hábitos comuns principalmente à Geração Y, os millenials, têm sido chamados de “cringe”. Gostar de tomar café, ser fã da série Friends, pentear o cabelo de lado e até usar sapatilhas viraram itens do checklist para a qualificação de vergonhoso. Até a admiração pelo Raça Negra e as onomatopeias para as risadas entraram na lista, vejam só!

Mais importante do que definir o que entra ou não no clube do “cringe” é perceber como o uso da língua incorpora termos e expressões de outros idiomas. Neologismo é o nome que se dá para o fenômeno linguístico caracterizado pelo uso de palavras novas ou para a atribuição de um novo sentido à palavra já existente na língua.

As redes sociais são um terreno bastante produtivo para essa disseminação. São constantes as inovações na língua portuguesa, como “desver” ou “desler” algo – dois verbos que não existem no dicionário, mas, a partir do prefixo des-, ganharam uma acepção na rede. Perceba que o sentido passa a ser intuitivo, especialmente a partir da ideia de negação e privação transmitida pelo des-.

Para ressaltar a força de um time, por exemplo, torcedores dizem que ele é “incaível”. Outro exemplo de uma palavra que não existe nos dicionários, mas cujo significado é entendido pelo leitor.

Dar uma nova definição a uma palavra que já existe é também um neologismo. Promover o “cancelamento” de alguém ou de algo na internet ou “passar pano” para alguém são exemplos.

Além disso, o uso pelo empréstimo de palavras de outros idiomas tem sido comum. “Fazer o exposed” (para denunciar algo), “jogar hate” (para destilar ódio) ou chamar alguém de “crush” (de uma forma amorosa) são formas de usar expressões estrangeiras num contexto nosso.

Se o anglicismo “cringe” cairá no uso habitual do português, se será incorporado ao nosso vocabulário ou se será tão somente uma moda efêmera, não sabemos ainda.

O que podemos afirmar é que a língua, dinâmica como é, se faz pelo uso.

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