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Jornalista, é mestra em Estudos da Tradução (UFC), especialista em Tradução (Uece) e pós- graduada em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais (Estácio FIC). No O POVO, já atuou como ombudsman, editora de Opinião, de Capa e de Economia, além de ter sido repórter de várias editorias.

Daniela Nogueira linguagem e comunicação

"Ser paraíba" não é força de expressão

A linguagem, como instrumento de dominação, é meio para a reprodução de estereótipos já enraizados
Tipo Opinião
A ex-BBB e paraibana Juliette Freire se manifestou em suas redes sociais sobre o uso do termo (Foto: Reprodução/Twitter)
Foto: Reprodução/Twitter A ex-BBB e paraibana Juliette Freire se manifestou em suas redes sociais sobre o uso do termo

Desta vez, foi a atriz Antônia Fontenelle que acabou por escancarar mais um infeliz conhecido preconceito, ao tentar criticar o DJ Ivis, pela agressão à mulher. Escreveu ela: “Esses ‘paraíbas’ fazem um pouquinho de sucesso e acham que podem tudo. Amanhã vou contatar as autoridades do Ceará para entender porque esse cretino não foi preso.” (sic)

A repercussão não foi das melhores, dado o tom discriminatório no uso de “paraíbas”. A emenda, no entanto, ficou pior. Logo depois, a atriz publicou em suas redes sociais um vídeo em que dizia: “Se juntaram pra agora me acusar de xenofobia. (…) Porque eu falei esses paraíba (sic), quando começam a ganhar um pouquinho de dinheiro acham que podem tudo. Paraíba eu me refiro a quem faz paraibada, pode ser ele sulista, pode ser ele nordestino, pode ser ele o que for. Se fizer paraibada, é uma força de expressão”. (sic)

Não é força de expressão. É preconceito contra a região Nordeste e seus moradores, é uma tentativa de mostrar o Nordeste como uma área tão somente de terra seca e chão rachado, é uma forma discriminatória de reduzir o desenvolvimento socioeconômico da região. E o pior: isso tudo está naturalizado na fala de Antônia e de mais um monte de gente que repete o termo “paraíba”, de forma pejorativa, para se referir a alguém do Nordeste.

O presidente Bolsonaro fez algo parecido. Em julho de 2019, em conversa com um ministro, fez uso do termo de forma depreciativa: “Daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada com esse cara”. Em resposta, governadores do Nordeste divulgaram uma carta em que cobravam explicações sobre a fala.

Em 1997, o ex-jogador Edmundo, então Vasco, esbravejou contra o árbitro cearense Dacildo Mourão ao ser expulso do jogo. “A gente vem na Paraíba, um paraíba apita... Só pode prejudicar a gente”, afirmou.

Estereótipos
A xenofobia – o preconceito, o desrespeito ou a intolerância contra grupos estrangeiros – está tão enraizada na nossa cultura que insistimos na naturalização das piadas e dos estereótipos do baiano preguiçoso, do carioca malandro, do português que não entende, do francês que não toma banho e do nordestino generalizado como “paraíba”.

Só se combate esse tipo de conduta discutindo constantemente sobre o assunto e lembrando que já é hora de estancarmos essas estigmatizações reducionistas, que constrangem e invalidam a identidade de cada um.

É perceptível, em situações desse tipo, como a linguagem pode ser um instrumento de dominação e quão forte é a discriminação fundamentada na língua. Basta recordarmos a desqualificação que se cristaliza a partir de alguns sotaques do País – principalmente quando não fazem parte da língua padrão ou “limpa”, comum nos programas de TV.

A discriminação linguística, principalmente contra os nascidos no Nordeste, reforça estereótipos e insiste no discurso repetitivo de que a região, com nove estados com características específicas, é sinônimo de atraso.

Não é ingenuidade nem força de expressão repetir generalizações com desdém e fazer uso de uma linguagem odiosa ao rejeitar alguém pela forma de falar ou pelo uso de estigmas. O nome disso é preconceito.

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