Marcos Sampaio é jornalista e crítico de música. Colecionador de discos, biografias e outros livros falando sobre música e história. Autor da biografia de Fausto Nilo, lançado pela Coleção Terra Bárbara (Ed. Demócrito Rocha) e apresentador do Programa Vida&Arte, na Nova Brasil FM
Foto: Divulgação
Cazuza e Frejat, do Barão Vermelho, dividem o palco do Rock in Rio 1985
Uma das cenas mais bonitas da história da música brasileira aconteceu em 15 de janeiro de 1985. No mesmo dia em que Tancredo Neves foi eleito presidente da república por um colégio eleitoral, Cazuza fez um discurso em sua estreia no Rock in Rio. "Que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã. Com um Brasil novo, uma rapaziada esperta", disse o então vocalista do Barão Vermelho, autêntico representante da juventude corada na praia de Ipanema, um dos guetos de resistência à ditadura.
Décadas passaram e o Brasil envelheceu. O Barão segue ativo, com seu terceiro vocalista, tentando manter viva sua história. Cazuza se eternizou e segue sendo um ídolo requisitado. A ditadura saiu do poder e hoje habita o coração de raposas espertas, a farda de militares saudosistas e o discurso vazio de bovinos úteis. O Rock In Rio virou uma franquia de sucesso, realizou edições pelo mundo, vende lama encaixotada e ainda atrai multidões. Já o rock perdeu espaço entre os jovens e no próprio Rock In Rio.
Como o Brasil consome mais moda do que música, não é de se estranhar que citando nomes como Paralamas do Sucesso, Blitz, Kid Abelha ou Lulu Santos, venha um "é o novo!" na sequência. Esses eram alguns nomes que estavam na vanguarda musical da época e que abriram espaço para um novo mercado consumidor com discos hoje considerados clássicos da MPB. Sim, porque o conceito "MPB" sempre foi aberto a muita interpretação. Não à toa, Ivan Lins, Alceu Valença, Milton Nascimento e Moraes Moreira também já estiveram no Rock in Rio. De diferentes formas, cada um desses artistas se aproximou do rock em algum momento, sem nunca deixar de ser MPB. O inverso também acontece: o rock nacional flertou, namorou e mantém um relacionamento estável com a MPB desde então. E sem nunca ter pedido nem para dar um tempo!
E, assim como a geração anterior, os roqueiros dos anos 1980 também herdaram o discurso político e a censura. A Blitz teve duas faixas do disco de estreia riscadas a prego (literalmente), uma delas por trazer um prosaico "puta que pariu". Os Paralamas, em 1985, também saudaram a chegada de Tancredo: "A gente vai ver aquela careca na TV por um bom tempo, mas a gente espera que alguma coisa de boa seja feita", disse antes de cantar "Inútil", do Ultraje a Rigor. Apesar do verso certeiro - "a gente não sabemos escolher presidente" - o vocalista do Ultraje virou um fiel defensor de um presidente que defende a ditadura e ataca constantemente a democracia.
Já Lulu Santos, em 1985, foi acompanhado pelo público enquanto cantava os atemporais versos de "Tempos modernos". Mas, três anos depois, foi censurado por colocar a Barbie e o Ken se acariciando na capa de um disco. O nome do disco? "Toda forma de amor", algo que é defendido por grande parte da juventude que apareceu no Rock In Rio 2022 gritando "ei Bolsonaro vai tomar no c*". Essa juventude não percebeu que essa expressão já deveria ter deixado de ser ofensa.
É isso, Bolsonaro não deveria tomar outra coisa que não fosse um caminho para bem longe do Planalto. E deveria ser escanteado da história, assim como o rock foi no Rock in Rio 2022. Com uma programação pautada pela audiência, o festival percebeu que seu público tem outros porta-vozes e que a revolta e o protesto não são mais exclusividades do rock. Para se ter uma ideia, Anitta fez mais pelo País com uma tatuagem e três postagem no Twitter do que muita gente eleita - e bem paga - pelo povo.
Catendê - "Música universal baiana, que veio de um momento único entre os compositores. Essa poesia reforça nossa ancestralidade, e com a melodia que parece que já faz parte de nós da primeira vez que ouvimos"
Você Abusou - "Um clássico mundial que todo brasileiro conhece e canta, música cheia de vida própria que atravessa os tempos e nos traz muitas interpretações atualizando nossos sentimentos em diferentes momentos"
Xamego de Iná - "É uma composição com balanço do samba funk brasileiro. A comprovação que o simples é genial, com riffs que são um caso à parte. O tipo de música perfeita pra ouvir os instrumentos em diálogo entre si"
Kabaluerê - "Com o DNA do que há de melhor nas composições de Antonio Carlos & Jocafi, muito sampleada pelo rap, faixa indispensável pra playlist e seleções musicais de música afro-brasileira"
Um abraço no Lucien Extensivo ao Edu - "Tem um valor especial para mim, com mantras que trazem a sensação de flutuar. Os coros vocais melódicos da música desenham a imagem do título da faixa: um abraço".
Sete anos depois de "Dancê", Tulipa Ruiz lança novo disco no dia 23 de setembro. "Habilidades Extraordinárias" traz as reflexões da cantora e compositora paulista pós-pandemia e conta com participações de João Donato e Negro Leo.
Depois de um disco de voz e violão com repertório alheio, Camila Brasiliano e Felipe Borim lançam o EP "Sois" com três canções autorais. Produzido por Antonio Loureiro, o álbum amplia a base instrumental, e se aproxima do jazz e da música mineira.
John Legend presta homenagem à esposa, Chrissy Teigen, no clipe de "Wonder woman". A faixa faz parte do disco "Legend", trabalho dividido em duas partes: uma sobre o agito do sábado à noite e outra sobre a ressaca do domingo.
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