Marcos Sampaio é jornalista e crítico de música. Colecionador de discos, biografias e outros livros falando sobre música e história. Autor da biografia de Fausto Nilo, lançado pela Coleção Terra Bárbara (Ed. Demócrito Rocha) e apresentador do Programa Vida&Arte, na Nova Brasil FM
Foto: Giros Filmes/ Divulgação
Tema do filme 'Ninguém pode provar nada', Ezequiel Neves com seu parceiro e pupilo Cazuza
José Ezequiel Moreira Neves, Ezequiel Neves e Zeca Jagger são diferentes etapas de um personagem que entrou para a história da música brasileira chutando a porta da frente. Quase sempre seu nome é lembrado como o cara que convenceu João Araújo, diretor da Som Livre, a gravar a banda do próprio filho, Cazuza. A banda era o Barão Vermelho, de quem Ezequiel foi produtor, parceiro e mentor até morrer em 7 de julho de 2010, vítima de um tumor no cérebro, enfisema pulmonar e cirrose. Mas a contribuição de Ezequiel foi bem maior e veio em doses de inteligência, mentira, exagero, intriga, talento, cara de pau, coragem e humor.
Isso é o que mostra o filme "Ninguém pode provar nada - A inacreditável história de Ezequiel Neves", que estreou em outubro no 27º Festival do Rio. O documentário é dirigido por Rodrigo Pinto, que dividiu com o baterista Guto Goffi e próprio Ezequiel a biografia do Barão, "Por que a gente é assim" (2007). Esta proximidade deu a ele acesso ao acervo de documentos e entrevistas deixadas pelo biografado. Pra completar, muitas cenas de filmes, encenações feitas em IA e pelo ator Emílio de Mello, e entrevistas com Frejat, Ana Maria Bahiana, Roberto de Carvalho e outros.
Mas, boa parte do filme é Ezequiel contando a própria história e buscando dar mais intensidade à própria loucura, como se fosse necessário. Nascido em 1935 em Belo Horizonte, ele mostrou a que veio logo cedo. Na escola, falsificava a assinatura dos pais para faltar aula e foi expulso quando foi pego bebendo e tomando banho de piscina. Na adolescência, se aproximou do teatro e do cinema. Começou a atuar e trabalhou com nomes como Jardel Filho e Rogério Sganzerla.
Vendo a cidade ficar pequena para as próprias ambições, foi para São Paulo e depois Rio de Janeiro, onde se estabeleceu e foi convidado pelo Jornal da Tarde para escrever sobre jazz. Mas, na época, a onda era o rock e ele tornou-se um dos primeiros críticos especializados no assunto. Mas fazia ao próprio modo, inventando histórias. Por exemplo suas entrevistas com Paul Simon, Mick Jagger e Alice Cooper nunca existiram de verdade. Uma vez ele dedicou página inteira a um falso disco solo de Keith Richards, com direito a resenha faixa-a-faixa e entrevista exclusiva com o guitarrista dos Rolling Stones. Em entrevista à revista Veja, contou como foi parar no Festival de Woodstock pegando carona no helicóptero da banda Jefferson Airplane. Tudo mentira.
Mas a paixão pela música era real e Ezequiel passou a ser uma referência no assunto, acumulando amores e ódios. Ele detonou o clássico do Pink Floyd "Dark side of the moon" e chamava Roberto Carlos de "arauto do conformismo". Como produtor, foi fundamental para a banda Made in Brazil, trabalhou com Ângela RoRo e no álbum que resgatou Cauby Peixoto do ostracismo com o sucesso "Bastidores". Depois de criticar muito os Mutantes, se derramou em elogios para Rita Lee em carreira solo, de certa forma validando a nova fase. Depois eles romperam com direito a xingamentos pesados ("aquela boca de botox parece uma hemorroida", ele diz) e porrada de verdade (dela nele). O motivo não fica claro no filme, se ele com ciúmes dela com Roberto, ou se foi ela com ciúmes dele com Cazuza.
"Eu sempre gostei de gente jovem e eles já estavam velhos para mim. Rita é uma pessoa louca, maluca, drogada, que finge de santinha. No fundo é uma moralista de quinta categoria", aponta Ezequiel que encontrou em Cazuza a obra de sua vida e, claro, mais conflitos. Assim como gostava de dar opiniões fortes sobre cada detalhe dos discos, ele também queria viver a loucura de uma banda de rock. Co-autor de "Exagerado", "Codinome beija-flor" e "Por que a gente é assim", ele queria ser, além de produtor, um pai com lições de vida bem pouco edificantes para seus pupilos. "Eu gostava muito do Ezequiel, mas ele provocava um lado horrível do Cazuza. Ao mesmo tempo que culturalmente ele foi maravilhoso para o Cazuza, esse lado de maluquice ele acirrou e o Cazuza, claro, adorava", explica Lucinha Araújo, mãe de Cazuza.
Em cerca de 1 hora e 40 minutos, "Ninguém pode provar nada" revela um personagem que não ligava para regras, tinha inteligência acima da média e um forte apresso pelo excesso de drogas, álcool, cultura e ego. Em muitos momentos, o filme peca numa narrativa confusa e em depoimentos sem identificação ou contexto. Ezequiel Neves já era afeito à mentira e o filme não ajuda na verdade dos fatos. Já no final, diante das câmeras, Nelson Motta recebe uma ligação de Ezequiel, numa encenação meio canastrona. O mesmo se repete numa carta recebida por Frejat. É uma encenação, tudo indica que é, como muitas das histórias de Zeca Jagger. Mas os discos em que ele meteu a mão são de verdade. E é por isso que ele foi necessário.
Loja, bar e espaço cultural, a Freelancer Discos fechou sua loja neste sábado, 28, no Quintino Cunha por motivos estratégicos. É triste por que o bairro, esquecido pela gestão pública de cultura, perde um espaço de eventos, encontros e fruição. Mas a loja do Centro (rua Dr. João Moreira, 485) segue em funcionamento.
Em vinil
Tema da Discografia do dia 9 de novembro, o novo disco solo de João Parahyba acaba de ganhar edição em vinil pelo selo Vitrine. "Mangundi" reúne oito faixas inéditas do percussionista paulista fundador do Trio Mocotó. Seu parceiro de Trio há mais de 50 anos, Nereu Gargalo participa em uma das faixas.
Acústico
O clube de colecionadores de vinil Noize lançará "Tarde", disco inédito de Milton Nascimento, em edição exclusiva para assinantes. O álbum traz 11 clássicos em versões únicas, com a voz de Milton e o violão de Wilson Lopes. O LP, além de três inéditas, tem uma versão de "A festa", lançada por Maria Rita.
Geração
Cantora, compositora, instrumentista e performer de altíssimo padrão, Badi Assad celebra seus contemporâneos no disco "Parte de tudo isso". Produzido por Marcus Pretto e Tó Brandileone, o álbum conta com parcerias dela com Otto, Pedro Luis, André Abujamra e Ceumar, todos nascidos na década de 1960.
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