Marcos Sampaio é jornalista e crítico de música. Colecionador de discos, biografias e outros livros falando sobre música e história. Autor da biografia de Fausto Nilo, lançado pela Coleção Terra Bárbara (Ed. Demócrito Rocha) e apresentador do Programa Vida&Arte, na Nova Brasil FM
Poucos discos de 2025 foram tão comentados quanto "Dominguinho", fruto da parceria entre o midiático João Gomes, o talentoso Mestrinho e do elegante Jota.Pê, dono de um fraseado "MPB pop" à lá Djavan. Vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Música de Raízes em Português, o trabalho a seis mãos ganhou esse nome por que tem o clima solar de um domingo e o forró como espinha dorsal. E, quando se fala em forró, um nome que salta - ou deveria - é Dominguinhos (1941-2013).
Mas, ao contrário do que o nome pode sugerir, "Dominguinho" não é um tributo ao compositor de "Contrato de separação". Pelo contrário, não tem uma única música do pernambucano. São 12 faixas com versões inéditas para canções do repertório de Zé Vaqueiro, Kara Véia, Flávio José, Unha Pintada e dos próprios envolvidos. É o caso, por exemplo, de "Flor", inédita de Mestrinho. Como curiosidade, "Pontes Indestrutíveis", reggae do Charlie Brown Jr. que aqui transforma-se em xote. A propósito, quando Gilberto Gil apresentou o reggae a Dominguinhos, este sentenciou: "Isso é só um xotezinho safado".
Dada a senha, os dois grandes trunfos de "Dominguinho" estão na escalação e na informalidade. No primeiro, o disco reúne um dos nomes mais populares da atualidade, um jovem artista de talento ainda a ser descoberto e um músico já respeitado, com trabalhos ao lado de Hermeto Pascoal, Ivete Sangalo, Elba Ramalho e que rodou Brasil acompanhando Gil em sua turnê de despedida. Imagino que boa parte do público que lotou os shows comprou ingresso para ver João Gomes e levou Jota.Pê e Mestrinho de brinde. Mas que brinde, né? Além deles, Vanutti (violão) e Gilú Amaral (percussão).
Sobre o segundo aspecto, o disco conta com diálogos, risadas, cacos e nada parece ter tido muito ensaio. "Mete um block nele" é um bom exemplo, que mais parece uma brincadeira entre amigos. "Até mais ver" ("Se eu morasse aqui pertinho, nega...") é dessas canções que a gente nem percebe o quanto são bonitas, mas eles dão a dignidade merecida à composição de Pedrinho do Nordeste e Primo sem fazer muita força. "Dominguinho" não chega a ser uma surpresa no Nordeste, onde podemos conviver com tantas versões de forró, do "pé de serra" ao "de plástico". Para o Sudeste talvez ele traga alguma novidade, um ineditismo, mas sem exotismo. Juntando os dois brasis, "Dominguinho" é uma trilha bonita, uma parceria sem estrelismos e um encontro que surpreende pela naturalidade com que desliza ouvido adentro.
Em maio próximo, Djavan estreia uma turnê que celebra seus 50 anos de carreira. Ao longo desse período, o alagoano embalou muitos romances com um som que mistura soul, jazz, samba, bossa nova, funk e outras vertentes da black music. Tudo isso se encontra em "Improviso", seu 26º e mais recente trabalho, mas sem a vivacidade de outrora. Mais uma vez ele recorre ao método de compor, arranjar e produzir por conta própria, logo não se surpreenda se tudo soar repetitivo. De fato é. Ao longo das 12 faixas, é comum perceber semelhanças com essa ou aquela outra. "Improviso" tem duas curiosidades: "O vento", lançada por Gal Costa em 1987 e só agora lançada na voz do autor, e "Pra sempre", feita para ganhar letra de Michael Jackson, mas nunca entregue ao norte-americano. Fora isso, é mais Djavan em gênero, número e grau, sem muito esforço de trazer novidades.
Apesar de musicalmente distantes, em um ponto o mineiro Lô Borges e o maranhense Zeca Baleiro se parecem muito: a necessidade frenética de compor, gravar e lançar discos, tanto que nem os fãs acompanham. O disco que fizeram juntos acabou chamando atenção por que foi o derradeiro de Lô, que faleceu em novembro de 2025. E é ele quem guia a sonoridade que passeia pelo rock com toques de psicodelia, remetendo levemente ao Clube da Esquina. É o caso de "Ao sair do avião", com camadas de sons sobre uma letra de frases repetidas. A nostálgica "Santa Tereza" promove um passeio pela Belo Horizonte que viu nascer um dos mais ricos movimentos musicais brasileiros. Mas esse não é um álbum que olha para trás, nem uma carta de despedida. "Céu de Giz" é Lô e Zeca buscando extrair novidades um do outro, como mostra a agitada "Donos do mundo". É fato que em alguns momentos ele soa burocrático e duro nos arranjos, mas é um disco que guarda belezas que podem ser descobertas aos poucos.
O último show de Gal Costa, realizado dois meses antes de sua morte, foi no Festival Coala, em São Paulo. Embora a baiana não tivesse mais o viço e a energia de tempos atrás, foi recebida como estrela e reuniu 20 canções em um set lançado em streaming e vinil (Biscoito Fino). Da hiponga "Hotel das estrelas" à recente "Palavras no corpo", Gal deu preferência aos hits setentistas e alegrou a plateia. Recebendo Rubel e Tim Bernardes como convidados, o show tem pegada roqueira e pop e faz um retrato melancólico dos últimos momentos de uma das maiores vozes do mundo.
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