Marcos Sampaio é jornalista e crítico de música. Colecionador de discos, biografias e outros livros falando sobre música e história. Autor da biografia de Fausto Nilo, lançado pela Coleção Terra Bárbara (Ed. Demócrito Rocha) e apresentador do Programa Vida&Arte, na Nova Brasil FM
Foto: Divulgação
Capa do disco 'O lado B da bossa', de Roberto Menescal e Cris Delanno
Roberto Menescal e Cris Delanno O lado B da bossa
Amigos há décadas, Menescal e Dellano já trabalharam juntos um sem número de vezes. Mas seguem provocando um ao outro, como nesse disco dedicado a um lado menos popular da bossa nova. De fato, ficaram de fora pilares como "Garota de Ipanema" e "Chega de Saudade", mas a busca pelo tal "lado B" parece medrosa ao final das 11 faixas. Ainda mais pelo disco envolver dois nomes que conhecem esse estilo de có e salteado. Vá lá que "Ah se eu pudesse" foi uma exigência de Cris, mas tem música muito mais obscura do que "O negócio é amar" e "Este seu olhar". Sim, o disco é elegante, a parceria é verdadeira e Cris é uma senhora cantora. Mas "O lado B da bossa" precisaria de um pouco mais de força de vontade para atingir seu potencial histórico e arqueológico.
Chegando a 20 anos (em 2027), o Vanguart voltou ao ponto de origem e hoje conta só com Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln na formação. Responsáveis pela semente da banda, são eles que assinam (juntos ou separados) o repertório deste sétimo disco autoral. Mesmo com formato reduzido, eles buscam manter a essência, o som forte, as letras confessionais, as melodias cativantes e a interpretação emocionada. Também é claro o desejo de soar mais palatável, até positivo demais, para chegar mais fácil ao ouvinte. Ao final das 12 faixas, é difícil escolher um destaque, embora a faixa título tenha o apelo do alcance vocal de Hélio. Longe da explosão criativa de "Beijo estranho", "Estação Liberdade" é mais radiofônico e estável. Talvez cresça em cena, na turnê.
Seis anos depois de "Boa Sorte", o cantor e compositor baiano, frontman da banda Maglore, volta com mais uma coleção de composições que refletem sobre finitude, maturidade e velocidade dos novos tempos. Tentando manter a positividade, Teago mistura rock com folk, MPB, baião, como quem reúne Bob Dylan, Carlinhos Brown, Eumir Deodato e Erasmo Carlos numa roda de violão. Silvia Machete, em fase introspectiva, divide a bossa melancólica "Vida de Casal". Já "Eu nasci pra você" se esforça pra caber na métrica uma série de pensamentos sobre ego, modernidade, amor e outros temas. Mas ele faz isso tudo em canções sedutoras, diretas, poeticamente ricas e acessíveis, e cantando de um jeito que dá vontade de cantar junto.
Parte de uma cena que renovou o samba no início do milênio, Roberta Sá celebrou 20 anos de carreira em 2025 com uma turnê e um disco de regravações. O álbum passeia pela discografia da natalense através de 14 faixas que têm como acompanhamento apenas bandolim (Alaan Monteiro) e violão (Gabriel de Aquino, primo de Baden Powell). A seleção vem de "Eu sambo mesmo", do elogiado "Braseiro", seu álbum de estreia; passa por "Cocada", do ousado "Quando o canto é reza"; e chega a novidades, como a releitura pálida de "Essa confusão", de Dora Morelenbaum e Zé Ibarra. Afinada, persistente e com bom gosto, Roberta Sá acaba pecando pelo excesso de zelo. Avaliando seus 20 anos de estrada, é certo que ela ainda tem muito horizonte para ser mais do que apenas uma bela voz.
Depois de 10 anos sem disco de inéditas, Lenine voltou no finzinho de 2025 com aquela vontade de mostrar ao mundo que segue em forma. Após o excepcionalmente inspirado "Carbono", "Eita" abre com a radiofônica - apesar das estranhezas - "Confia em mim", segue para a faixa título, tensa, intrigante e questionadora. "Meu Xamêgo" fala de amor com aquela verve pop nordestina que só Lenine sabe fazer. As participações especiais são um capítulo à parte: Maria Gadu se chega na ecológica "Rumo do Fogo"; Maria Bethânia enche de profundidade a dramática "Foto de família"; Siba dá personalidade a "Malassombro" com sua voz única; roadie há 10 anos com Lenine, Gabriel Ventura estreia como parceiro, toca todos os instrumentos, mixa e canta em "Beira". Para encerrar, o disco "Eita" tem o forró tipo quadrilha "Motivo", que poderia ser um rock tamanha a "escarrada" que dá no "canalha vacilão" a quem dedica a faixa.
Primeiro nasceu a admiração, depois a turnê e agora o encontro da pioneira marginal do pop com a rainha do coco. São 10 faixas em que elas misturam toques contemporâneos com a tradição brasileira da religiosidade, das brincadeiras de rua, do folclore. Apesar de trazerem experiências tão diferentes, Daúde e Lia trocam informações de suas vivências que percorrem o mundo, mas voltam para as raízes. É o que se vê tanto na introspectiva "Santo Antônio da Boa Fortuna" quanto nas releituras de "Quem é" e "Galeria do Amor", surpreendentemente livres de conceitos e preconceitos. Com ares de registro histórico, "Pelos olhos do mar" conta com composições de Otto, Russo Passapusso, Céu, Karina Buhr e outros.
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