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Resenhas tardias 4: uma seleção de discos cearenses lançado em 2025
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Marcos Sampaio é jornalista e crítico de música. Colecionador de discos, biografias e outros livros falando sobre música e história. Autor da biografia de Fausto Nilo, lançado pela Coleção Terra Bárbara (Ed. Demócrito Rocha) e apresentador do Programa Vida&Arte, na Nova Brasil FM

Marcos Sampaio arte e cultura

Resenhas tardias 4: uma seleção de discos cearenses lançado em 2025

Encerrando a série, uma – pequeníssima – seleção de discos cearenses lançados em 2025 para prestar atenção
Tipo Opinião
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Capa do disco 'O que é que term', de Roberto Viana (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Capa do disco 'O que é que term', de Roberto Viana

O que é que tem? - Roberto Viana

É quase uma unanimidade entre os compositores da MPB setentista falar da importância do Beatles em sua formação. Indo além do quarteto inglês, o rock se espraiou pelo planeta e penetrou com força na mente de muitos músicos, incluindo os cearenses, claro. De Fagner e Belchior ao surpreendente e ainda desconhecido Chico Pio, é fácil provar essa influência. Logo, não é de se espantar que seja pelo filtro do rock que Roberto Viana enxergue, processe, crie e recrie a música cearense.

Cantor, compositor, produtor, ex-titular da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor), ele está lançando "O que é que tem?". Depois de um EP com quatro canções, composições gravadas por amigos e muitos shows, esse é seu mergulho mais profundo no ofício da música. São 10 faixas em que passeia pelo cancioneiro cearense, vindo desde a geração conhecida como Pessoal do Ceará, passando pela Massafeira até chegar aos contemporâneos, representados pelas próprias canções.

E é nesse ponto onde se encontra o ponto alto de "O que é que tem?". A faixa-título abre os trabalhos com um som funkeado que lembra o Barão Vermelho da fase "Pense e dance", com direito a um belo arranjo de metais e Roberto emulando os maneirismos de Frejat nos vocais. Ponto alto do álbum, "Poder da criação" é direta e eficiente ao falar da importância de criar arte - e se destaca o belo dueto que ele faz com a guitarra de Mimi Rocha, diretor musical e arranjador do disco. Ainda da safra autoral tem "Tanto amor", excessivamente pop e datada, e a balada radiofônica "Sorrir", à la Roupa Nova.

A outra parte de "O que é que tem?" explora o lado intérprete de Roberto Viana, mantendo o canto visceral de quem tem no rock sua maior inspiração. E nesse ponto ele garante mais bons acertos, como a releitura stoneana de "Cor de Sonho", clássico de Mona Gadelha. "Ave Noturna" perdeu a melancolia derramada de Fagner e ganhou peso amargo. "Solitudine" é uma pérola de Chico Pio, dessas baladas envolventes que ganham um arranjo à altura. Também de Chico, "Jogo aberto" é um reggae bacana, mas deslocado no repertório.

"O que é que tem?" conta com um time pesado de instrumentistas. Herlon Robson (teclados); Ferreira Junior e Barney Oliver (metais); Denilson Lopes, Pantico Rocha e Renato Massa (bateria); Nélio Costa e Ney Vasconcelos (baixo) e outros. Os vocais de Beatriz Bandeira e Claudine Albuquerque mereciam um tratamento melhor, embora esta última brilhe fazendo solo em "Ponta do Lápis". E é só o primeiro disco de Roberto Viana, que já conta vitórias como uma agenda de shows pelo Brasil, incluindo o lançamento - em dezembro último - no Circo Voador (RJ), para onde corre todo o rock brasileiro desde os anos 1980. Sem negar o quanto essa geração foi importante para sua história, ele não teria lugar melhor para apresentar suas boas canções.

Cara do disco 'Unir versos', de Luciano Franco e Luis Lima Verde
Cara do disco 'Unir versos', de Luciano Franco e Luis Lima Verde

Luciano Franco e Luis Lima Verde - Unir Versos

Três anos depois de "Valsa do tempo", as melodias de Luciano Franco voltam a encontrar a poesia de Luis Lima Verde em um disco cujo forte está no trato cuidadoso com o que a MPB tem de melhor. Tem samba, bossa, baião, xote e outros estilos para falar de amor, cerveja, cenários, saudade e outros temas comuns da vida, tudo com uma linguagem simples - sem ser simplória - e envolvente. Roberta Fiúza convida a dançar em "Segredos de Mar". Edinho Vilas Boas está à vontade em "Euforia", excelente tema de abertura. "Luzia" é um samba tipo "Vinicius & Toquinho", que Gilmar Nunes dribla com beleza. Contando ainda com Ciribah Soares, Juruviara, Theresa Raquel e outros, "Unir Versos" é o resultado de uma seleção de craques. Faço uma correção: o forte do disco está na amizade que une melodias, letras e interpretações.

Capa do EP 'Alfa', de Duarte Dias
Capa do EP 'Alfa', de Duarte Dias

Duarte Dias - Alfa

Chegou esta semana às plataformas de streaming o EP "Alfa", do compositor, cineasta e escritor cearense Duarte Dias. Parte de uma trilogia que prevê ainda "Gama" e "Beta", cada EP terá quatro faixas de autoria do gestor cultural que é ainda curador do Cineteatro São Luiz. Nessa primeira parte, ressaltam baladas que combinam o peso do rock com um clima tristonho. "Vida" é um rock básico, feito em homenagem a Carlinhos Perdigão, baterista que faleceu durante a pandemia de covid-19. "Luz" é uma balada de adeus, que remete a algo de Nando Reis. "Sós" é um reggae distoante com letra cinematográfica. E "Brilho" é uma balada épica, com cara de AM e letra apaixonada. Duarte canta ainda com insegurança, mas busca ousadia na hora de compor.

 

Capa do disco de estreia da banda cearense Cor dos Olhos
Capa do disco de estreia da banda cearense Cor dos Olhos

Cor dos Olhos

Passada a turbulência da separação dos Selvagens à Procura de Lei, Caio Evangelista, Nicholas Magalhães e Rafael Martins criaram a Cor dos Olhos, banda que parte da mesma premissa da anterior: rock básico com letras claras e auto reflexivas. Um ponto positivo do grupo é presença de dois vocalistas: enquanto Rafael é mais direto, Nicholas tem um acento soul no grave à la Tim Maia - que soa mais natural em "Banho de rosas" do que em "Rouxinol". O álbum de estreia é um compilado de boas canções, como a acelerada "Cataventos" e a balada crua "Te vi". "Canção para alguém ferido" lembra Strokes e fala sobre autoconfiança para seguir em frente, assim como "A curva". Encerrando com a amarga "Fé em que?", o trio mostra que sabe fazer boa música, e não se preocupa em fazer algo diferente do que já faziam.

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