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Bolsonaro na ONU: descompasso com a realidade

O discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura comemorativa da 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas, ontem, teve tudo para confirmar perante a plateia internacional aquilo que os brasileiros já se acostumaram a ver em seu dirigente maior: negacionismo, reacionarismo, preconceito e, mais do que tudo, capacidade "imaginativa" para distorcer o real.

Ao invés de encarar a realidade dos fatos e a crueza do retrocesso social (o Brasil está de volta ao Mapa da Fome), econômico, cultural e humanitário que já varria o País na véspera da pandemia, Bolsonaro preferiu colocar-se como vítima de uma "campanha de desinformação" provocada "por interesses escusos" onde não faltaria a mão da imprensa. Não teve pejo de afirmar que "o Brasil é um exemplo para o mundo na gestão ambiental" (e dos direitos humanos). E estaria sofrendo ataques internacionais no meio ambiente por conta de interesses comerciais de concorrentes. Além do mais, acusou os índios de estarem tocando fogo na floresta (embora, contraditoriamente, afirmasse que esta é úmida e infensa à combustão).

Na sua versão imaginária, o desastre no enfrentamento da pandemia foi traduzido assim: "Alertei em meu país que tínhamos dois problemas: vírus e emprego. Ambos devem ser tratados simultaneamente", disse. "Todas as medidas de isolamento foram delegadas a cada um dos 27 governadores", ironizou. Por último, uma parcela da "imprensa politizou o vírus disseminando o pânico (...) Sob o lema 'fique em casa', quase trouxeram o caos social ao País" - reclamou. "O nosso governo implementou medidas econômicas que evitaram o mal maior".

Na verdade, os governadores é que defendiam um tratamento simultâneo, mas, priorizando a vida. Bolsonaro, ao contrário, priorizou, exclusivamente, os negócios, foi contra o isolamento social. E também do uso de máscaras. Postulou uma espécie de "seleção natural", onde só os fortes sobreviveriam (postulado nada humano, nem cristão). Se seguido, teríamos de aceitar que pessoas idosas e com comorbidades tivessem uma morte horrível: por asfixia, pois não se deveria gastar com a aquisição de respiradores.

Quanto à ajuda emergencial, a ideia inicial era não socorrer ninguém. Ante à pressão do Congresso, propôs R$ 200,00 e, a contragosto, aceitou R$ 600,00. Foi isso que deu sobrevida à economia. E trouxe ao presidente apoio popular, uma descoberta que lhe pareceu ser preciosa para a disputa eleitoral.

Quanto a política internacional, além da frontal acusação a Venezuela pelo acidente de óleo nas praias brasileiras Jair Bolsonaro demonstrou, mais uma vez, completo alinhamento ideológico com Donald Trump ao elogiar as negociações de paz cujo governo americano vem promovendo com países conflituosos no Oriente Médio.

O discurso do presidente brasileiro evidencia o descompasso que seu governo conduz a Nação, descolado dos problemas reais, incapacitado de integrar e liderar às transformações necessárias. 

 

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