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Editorial opinião

Eleição no Peru mostra país dividido

A eleição presidencial peruana está com 100% dos votos apurados, porém as cédulas efetivamente contabilizadas perfazem o índice de 99,58%, apontando para a vitória apertada do candidato de esquerda, de orientação comunista, Pedro Castillo, filho de agricultores, que pela primeira vez disputa um cargo eleitoral.

Castillo tem 50,17% dos votos frente ao percentual de 49,82% obtido por sua adversária da direita liberal, Keiko Fujimori, diferença de 60 mil sufrágios. Ela é filha de Alberto Fujimori, que assumiu democraticamente a presidência do Peru em 1990, deu um autogolpe em 1992, governando ditatorialmente até o ano de 2000. Keiko questiona 800 atas eleitorais, representando cerca de 200 mil votos, alegando fraude nas urnas, o que será verificado pela autoridade eleitoral peruana.

O fato é que, independentemente de quem seja declarado vencedor, a sociedade peruana continuará dividida ao meio entre dois projetos antagônicos no campo da economia. Quanto aos costumes, os dois candidatos são conservadores. Assim ficam descartadas mudanças na legislação sobre o aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e identidade de gênero.

O candidato da coligação Peru Livre mobilizou os estratos empobrecidos da população e centrou sua campanha em defender a saúde e educação como direitos fundamentais, e no combate à corrupção — o que atinge diretamente sua adversária, devido a ações judiciais a que ela responde. A candidata da Força Popular, por sua vez, representa os setores mais urbanos do establishment, e acusa o rival de ter como objetivo instalar um governo autoritário no Peru.

Se Keiko Fujimori conseguir reverter o resultado com a recontagem de votos teria contra si um setor da sociedade normalmente relegado a segundo plano, mas que conseguiu, sob a palavra de ordem "Chega de pobres em um país rico", apresentar um candidato viável. Portanto, será difícil esse segmento conformar-se em perder esse protagonismo, podendo tornar-se uma oposição aguerrida.

Castilho, por sua vez, terá de enfrentar um parlamento hostil. Como seu partido Peru Livre ganhou apenas 37 das 130 cadeiras do Congresso unicameral do país, terá problemas para mudar a legislação, necessário para cumprir alguns pontos de sua plataforma, especialmente na área econômica. Com poucos recursos, terá ainda dificuldade para implementar o seu programa social, o que poderá levar seus seguidores a exigir o cumprimento de suas promessas de campanha, deixando-o pressionado entre parlamento e as ruas.

Portanto, o término do processo eleitoral, por si só, não acalmará a agitação que vem atingindo o país vizinho. Por isso, para o bem da democracia, os candidatos têm o dever de se comprometerem a acatar o resultado das urnas, dando a sua contribuição para a pacificação da sociedade peruana. n

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