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Editorial opinião

As agressões à memória de Fortaleza

Com diferença de apenas três dias, este mês de julho assistiu a duas agressões contra a memória de Fortaleza.

A primeira, pela força da grana, que destrói coisas belas, por vezes chamada de "especulação imobiliária". Pelas mãos do homem, veio abaixo o Casarão dos Gondim, uma edificação no centro da cidade prestes a completar 110 anos.

O solar, além de constituir-se patrimônio material, por sua importância arquitetônica, foi residência da compositora Maria de Lourdes Hermes Gondim, a primeira pianista profissional do Ceará, portanto, tem também relevância imaterial. Tanto é que se cogitava fazer da casa um Museu da Música para homenagear a sua história.

O outro infausto acontecimento foi o desabamento da parte superior do abandonado Farol do Mucuripe, conhecido como Farol Velho, conhecido em todo o País na voz de Ednardo. Na canção Terral, o compositor lembra os faróis, como "os olhos do mar", "o velho que apagado; o novo que espantado" a guiar navegantes. Desta feita, a obra demolitória não foi fruto da ação, porém da omissão de quem deveria cuidar de um símbolo que está inscrito na bandeira do Ceará. Construído entre 1840 e 1846, por mão de obra escrava, desativado em meados da década de 1950, é uma das mais antigas edificações de Fortaleza.

É bastante frequente que as demolições de prédios históricos aconteçam à socapa, pois seus autores sabem que estão fazendo alguma coisa errada, quando não flagrantemente ilegal. No caso do solar dos Gondim, a destruição deu-se em um fim de semana, quando o Centro da cidade estava esvaziado.

Em um primeiro momento a Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor) afirmou ao O POVO que o imóvel estava em processo de tombamento, portanto, "legalmente protegido contra destruição ou descaracterização". Assim, qualquer intervenção na casa só podia ser feita sob autorização.

No entanto, foi entregue a este jornal, sob sigilo, documento assinado por Júlio Fernando Santos, titular da Secretaria Regional 12 (SR12), responsável pelo Centro da cidade, autorizando a "demolição total" (grifado no original) do prédio. Ou a SR12 desconhecia o processo de tombamento ou passou por cima da Secretaria responsável por esse tipo de procedimento.

Ambas as possibilidades são graves e depõem contra uma autoridade que deveria atuar em favor do bem público e não apressar-se a atender interesses de particulares. É caso, portanto, de investigar o ocorrido para saber exatamente onde aconteceu a falha, de modo a punir os culpados, se for o caso.

Quanto ao Farol Velho, sob a responsabilidade do governo do Estado, basta a boa vontade das autoridades para recuperá-lo e fazer dele um centro de atividades culturais.

No mais, é lamentar a existência de uma longa e cruel tradição no Ceará de liquidação da sua memória, como se o "desenvolvimento" obrigasse a esmagar o passado, sem dó nem piedade. n

 

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