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Editorial opinião

É preciso conter os liberticidas

Segundo reportagem publicada pelo O Estado de S. Paulo (22/7/2021), o ministro da Defesa, Braga Netto, mandou "um duro recado" ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). A ameaça, que teria sido levado por um "importante interlocutor político", era a exigência de haver "voto impresso e auditável" na disputa presidencial ou não haveria eleição em 2022. O relato poderia ser tomado por si só como verdadeiro, devido à seriedade do jornal. No entanto, na sequência, o comportamento dos envolvidos veio a se somar como prova da credibilidade da notícia.

Apesar de o general Braga Netto ter classificado como "mentira" a reportagem, a nota oficial emitida por ele não desmente categoricamente as informações. Ele escreveu que não se comunica com os presidentes dos poderes por meio de terceiras pessoas, e que o jornal atribui a ele "mensagens" com o objetivo de "criar uma narrativa sobre ameaças feitas por interlocutores". Termina o comunicado defendendo o voto impresso.

Lira, por sua vez, também negou ter recebido o recado, mas na sua manifestação por escrito, em uma rede social, limitou-se a escrever que "o brasileiro quer vacina, quer trabalho e vai julgar seus representantes em outubro do ano que vem através do voto popular, secreto e soberano".

Porém, já é suficientemente grave somente o fato de essa possibilidade ser plausível — uma ameaça militar direta — e ser levada a sério por toda a imprensa e pela maioria dos políticos dos mais diversos partidos com assento no Congresso. Isso já mostra o tamanho do problema no qual está submerso o Brasil.

Nessa conjuntura, é legítimo afirmar que a democracia brasileira está sob ataque e que, pela primeira vez desde o fim da ditadura, em 1985, a possibilidade de um golpe de força volta a se anunciar, na sequência do desmantelamento das instituições que vêm sendo promovidas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Muitos analistas afirmam não haver possibilidade de um golpe ao velho estilo "tanques nas ruas", mas é preciso esclarecer que o perigo também reside no fato de o presidente da República, a quem cabe zelar pelas instituições da democracia, ser o primeiro a atacá-las, ameaçando com a intervenção das Forças Armadas, quando as decisões de órgãos independentes não lhe agradam.

Em um país democrático, isso é inaceitável e deveria constituir-se, por si só, um crime pelo qual o assacador deveria responder. O mal já reside no próprio fato de o presidente sentir-se à vontade para promover tais agressões, como se fosse inimputável.

De qualquer modo, o acontecimento serviu para que as diversas instituições, e os outros dois poderes da República, por meio de seus representantes, reafirmassem, de forma peremptória, sua rejeição a aventuras golpistas. Da mesma forma, a imprensa cerrou fileiras em torno da democracia. É preciso uma forte união de todos os democratas para conter os liberticidas. n

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