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Editorial opinião

Bolsonaro faz discurso doméstico na ONU

Se alguém alimentava a esperança de que o presidente da República, Jair Bolsonaro, faria um discurso na abertura da 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) que ajudasse a melhorar a sua própria imagem e a do Brasil na comunidade internacional, ela se desfez logo na primeira frase do pronunciamento, que demorou 12 minutos.

A fala começou com Bolsonaro atribuindo à imprensa uma presumida cobertura distorcida de sua gestão: "Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões". Na sequência, passou a discorrer sobre os supostos feitos do seu governo, nos quais misturou desequilíbrio, exageros, deturpações, mentiras, afora apelos conservadores e religiosos.

Segundo o jornalista Jamil Chade, que cobre a ONU para o portal Uol, a fala de Bolsonaro foi recebida por delegações de outros países com "indignação e chacotas". Jornais estrangeiros reagiram de forma parecida. O problema, para Bolsonaro, é que os negociadores internacionais têm a exata noção do que se passa no mundo, com meios próprios para verificar os acontecimentos nos países de suas relações. Assim, eles têm a real condição de avaliar criticamente o discurso de cada líder, de forma objetiva.

Portanto, de nada adianta o presidente brasileiro dizer que os indígenas brasileiros dispõem de vasto território, quando é notório que houve enfraquecimento da Fundação Nacional do Índio (Funai) e relaxamento na fiscalização para coibir a ação ilegal de mineradores e madeireiros em suas terras. Como comemorar a suposta redução do desmatamento na Amazônia, quando é público que o governo desmobiliza órgãos de controle, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)?

Na seara econômica, Bolsonaro atribuiu às quarentenas, adotadas para evitar a transmissão do vírus da Covid-19, a alta da inflação, culpando os governadores que implementaram a medida. Entretanto, especialistas apontam outras causas, incluindo o aumento da energia elétrica, para a elevação dos preços.

Mas o que talvez tenha causado o maior mal-estar foi o seu desacordo com a imunização, que disse apoiar, manifestando-se, porém, contra "qualquer obrigação relacionada à vacina". Em seguida, defendeu o tratamento precoce para a Covid, abandonada em praticamente todo o mundo, revelando que ele mesmo teria feito o procedimento. Até onde se sabe, Bolsonaro foi o único chefe de Estado a entrar no prédio das Nações Unidas sem estar vacinado.

Enfim, em vez de aproveitar a tribuna da ONU para obter um mínimo de reconhecimento internacional, Bolsonaro preferiu fazer um discurso doméstico, buscando arranjar culpados pelos graves contratempos do País, causados pela sua própria letargia, que está levando a uma situação insustentável, tanto do ponto de vista econômico quanto político. n

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