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Editorial opinião

Acusações à Prevent precisam ser apuradas

O depoimento de Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da área médica do plano de saúde Prevent Senior, à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, confirmou existir um grupo orbitando o governo do presidente Jair Bolsonaro, que continuou defendendo o "tratamento precoce" da Covid-19, mesmo depois de todas as evidências médico-científicas mostrarem a ineficácia da medicação. Batista Jr. começou o seu depoimento como testemunha e terminou na condição de investigado, acusado de mentir à CPI.

As questões as quais o diretor teve mais dificuldade para responder foram o ocultamento de mortes por Covid-19, a distribuição de kits com cloroquina e outros medicamentos para o "tratamento precoce", a realização de pesquisas sem o conhecimento dos pacientes, nem da família, e a alteração nos prontuários dos pacientes, com mudança do Código Internacional da Doença(CID).

O único procedimento que Batista Jr. admitiu foi a mudança do CID, sob a alegação de que o objetivo seria "tirar o paciente do isolamento", justificativa contestada pelos senadores médicos da CPI, como Rogério Carvalho (PT-SE), Humberto Costa (PT-PE), Zenaide Maia (Pros-RN) e Otto Alencar (PSD-BA), que classificou a prática como crime.

Para as demais questões as explicações foram frágeis, como no caso das receitas de "Kit Covid", que ele atribuiu à "autonomia médica", sem citar que a empresa incentivava a distribuição dos medicamentos. Quanto à pesquisa, um aúdio apresentado na CPI mostrou o diretor da Prevent, Fernando Oikawa, orientando os médicos a "não informar o paciente" sobre os medicamentos que estavam tomando, o que é irregular sob qualquer ponto de vista.

O que parece ter havido foi a crença desmedida no tratamento precoce, com o qual esperavam provocar uma espécie de revolução na medicina, dando reconhecimento internacional à empresa. O coordenador do estudo, cardiologista Rodrigo Esper, diretor da Prevent Senior, chegou a dizer aos colaboradores, em mensagem de áudio, que "o mundo" estava olhando para eles.

Agora, o fundador e diretor executivo da Prevent Senior, Fernando Parillo, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (23/9/2021), admite que o estudo realizado "não prova que cloroquina funciona contra a Covid". O reconhecimento é tardio, devido aos danos que já causou, levando pessoas a um tratamento que lhes comprometeu a saúde, levando muitos à morte. A propaganda espantosa que se fez sobre os supostos benefícios da prática, com decisiva colaboração do presidente Bolsonaro, levou uma parcela da população a tomar o medicamento sem nenhum tipo de assistência médica.

Para acusações tão graves contra a seguradora de saúde, o que se espera é uma investigação rigorosa das entidades que regulam a prática da medicina e também do Ministério Público. n

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