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Editorial opinião

Racismo individual, institucional ou estrutural?

Esta semana, tivemos dois exemplos de racismo em Fortaleza, gerando debate na cidade sobre o absurdo do preconceito, que ultrapassa os discursos racionais. Um caso foi o da delegada Ana Paula Barroso barrada na loja Zara do Shopping Iguatemi; o outro foi o da filha de um defensor público, uma garota de 16 anos, impedida de entrar em uma padaria da Portugaleria Shopping.

Em ambos os casos, foi destacada a punição aos funcionários, responsáveis pelos atos de discriminação, mas será que isso é suficiente para que situações como essa não se repitam? O racismo no Brasil não é apenas uma questão individual; não passa apenas pela responsabilidade de um segurança, com um julgamento apressado, discriminando uma adolescente ou uma delegada. Trata-se de uma questão maior da sociedade, ultrapassando uma visão equivocada sobre a chamada "democracia racial" que supostamente viveríamos no Brasil.

Podemos dizer que atos de discriminação como esses podem ser considerados também uma questão institucional (de empresas, estados e igrejas); mas também é resultado de um treinamento profissional equivocado, senão ainda de uma arcaica cultura escravagista ainda reinante. O grande fato é, certamente, uma questão estrutural no Brasil, que proporciona violência e morte, traumatiza pessoas e tira oportunidades de famílias inteiras de terem uma vida melhor.

O racismo brasileiro é estrutural, o que não tira a responsabilidade de ninguém por seus crimes. A discriminação pela cor da pele faz parte de um conjunto de práticas infelizmente naturalizadas, presentes de formas consciente e inconsciente. A teoria da democracia racial brasileira, apresentada formalmente ao Brasil pelo sociólogo Gilberto Freyre, em seu livro "Casa-Grande & Senzala", cai por terra nesses momentos em que flagramos crimes na banalidade do dia a dia.

A teoria sistematizada por Freire tratava da formação das famílias, com a inclusão dos negros, indígenas e de outras etnias. As ideias do autor não resistiram às práticas e começaram a ser desmistificadas, bem como se tipificou o racismo como crime. Ou seja: apenas foi confirmado o que já era visto como realidade desigual entre pessoas brancas e pretas.

Nos dois casos de racismo ocorridos em Fortaleza, as vítimas apresentam um perfil diferente da média de famílias negras marcadas pela pobreza. A violência dos atos chama a atenção porque é uma discriminação ligada pela cor, a qual chega antes da palavra. É realmente necessária uma modificação do olhar social. É preciso um esforço para superar o problema, que não passa apenas pela punição das pessoas flagradas em atos considerados racistas, mas por uma apreciação de todas as etnias.

Em ambos os casos registrados nesta semana, a violência ocorreu pelo constrangimento, mas temos exemplos de questões mais sérias que levaram a morte das suas vítimas. O caso do norte-americano George Floyd e do assassinato de João Alberto Silveira Freitas, dentro do supermercado Carrefour, em Porto Alegre, ainda são frescos na memória.

Portanto, em um mundo no qual se fala de nanotecnologia, inteligência artificial e tantos outros avanços tecnológicos, vemos mais claramente que os grandes problemas passam pela formação humana e por um esforço de igualdade racial dentro e fora das empresas e da sociedade em geral. n

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