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Editorial opinião

Os transtornos dos mil dias de Bolsonaro

A charge de Clayton, para o especial do O POVO Mais, que analisa os mil dias do governo do presidente Jair Bolsonaro, é um resumo perfeito dos acontecimentos que se seguiram, desde a sua posse até os dias de hoje. A série de reportagens também será publicada no jornal impresso, começando a partir deste domingo.

No desenho, um Bolsonaro eufórico, de braços abertos, olha para uma escultura que acabara de fazer, na qual modelou a expressão "1000 dias", e exclama: "Non parla". A referência é a uma história que se conta a respeito do italiano Michelangelo Buonarroti (1475-1564), um dos maiores artistas da humanidade que, ao terminar a escultura de Moisés, ficou tão impressionado com a própria obra que teria dito, mirando a estátua de pedra: "Fala!"

A diferença é que Michelangelo produziu uma obra eterna, que sobreviverá ainda por séculos. Quanto ao feito de Bolsonaro, nem se sabe ainda se ele conseguirá terminá-lo, mas cuja perfeição existe somente em sua própria cabeça e na imaginação de seus seguidores mais fiéis, por isso o "cale-se" atribuído a ele pelo chargista.

A realidade é que se torna cada vez maior o número de brasileiros que consideram o seu governo ruim, desconfiam de suas palavras e o rejeitam como candidato à reeleição. O presidente vê-se hoje às voltas com uma crise hídrica, situação econômica fugindo do controle, com aumento de preços, inflação alta e queda no Produto Interno Bruto (PIB).

Apesar da aparente trégua, iniciada com a vacinação em massa, que vem reduzindo o número de casos e de mortes provocadas pela Covid-19, a doença já custou mais de 590 mil vidas brasileiras, sabendo-se que muitas mortes foram provocadas por descaso e medidas equivocadas implementadas pelo governo.

Ainda assim, qual um Michelangelo ao contrário, Bolsonaro contempla o estrago como se fosse uma grande obra, mas proíbe que ela mostre sinal de vida, pois seria comprometedor. "Não errei em nada", disse em entrevista à revista Veja (24/9/2021), em relação à pandemia. "Eu falava que haveria desemprego, e foi o que aconteceu'', bravateou, como se fosse mero expectador e não o responsável para evitar as dificuldades que decorreriam da disseminação do novo coronavírus.

Como resume o título da primeira reportagem do OP sobre os mil dias de Bolsonaro, ele é um presidente "rejeitado, armado e perigoso à democracia", com uma gestão que apostou no tensionamento com os demais poderes e no incentivo à violência, por meio da facilitação da compra de armas.

Dos 1.461 dias de seu mandato, o presidente jogou fora mil deles. Até agora, a sua principal tarefa tem sido investir no desmonte de políticas públicas criadas no decorrer de vários governos, a partir da redemocratização, nas áreas da saúde, educação, cultura, meio ambiente e política externa.

Se esse era seu objetivo, ele pode vangloriar-se de sua obra, junto aos seus. Porém, deveria considerar-se interditado para falar em nome do Brasil. n

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