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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é coordenador das plataformas digitais do O POVO. Já foi editor adjunto de política e editor-executivo de Cidades no O POVO.

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Água fica mais cara com transposição, mas isso ninguém reivindica

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 Bolsonaro contempla a transposição
 Bolsonaro contempla a transposição

A chegada das águas da transposição do rio São Francisco ao Ceará acendeu acalorado debate sobre quem tem mérito pela obra. Previsível, mas imaturo. O projeto atravessou vários governos e cada um fez um pedaço. Tem mérito proporcional. Não é que Jair Bolsonaro fez em um ano e meio o que outros não fizeram em nos 16 anos anteriores. O presidente começou de onde pararam. Fez em menor tempo a parte menor que faltava. E, como os antecessores, também não cumpriu o prazo que havia estimado. Bolsonaro pegou a parte final. É ele quem saiu na foto e capitalizou. É do jogo. Assim como os antecessores reivindicarem a parte que lhes cabe.

O que ninguém vai reivindicar é a paternidade da conta de água mais cara. Sim, porque não existe transposição grátis. No ano passado, a Agência Nacional de Águas (ANA) estabeleceu cobrança de R$ 0,519 por metro cúbico de água pelo consumo. E mais R$ 0,263 por metro cúbico para arcar com os custos fixos da operação de transporte da água. A briga para sair na foto da inauguração da obra não se repetirá na hora de assumir responsabilidade pela tarifa mais cara.

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Quem fatura politicamente

A solenidade de ontem é talvez o maior trunfo que o presidente Jair Bolsonaro teve até hoje para melhorar a popularidade no Nordeste, região onde sofre mais resistência. Ele tem mérito, sim, ao concluir uma obra que atravessaram governos de outros três presidentes. Não é o primeiro governante a herdar obra em andamento, entregar e capitalizar. O maior acerto foi ter dado continuidade - não que tivesse alternativa. Ia fazer o quê? Desistir? Encher o canal de areia? Havia, porém, o risco de empurrar com a barriga e não se empenhar para concluir.

Fosse o Brasil um país com mínimo de maturidade política, Bolsonaro reconheceria que recebeu a obra mais de 90% feita e deu continuidade. Não foi ele quem fez o projeto, quem licitou, licenciou, iniciou, tocou a maior parte dos trabalhos. Dizer que finalizou o trabalho que teve participação de outros não diminuiria o mérito de Bolsonaro. Mostraria o mínimo de grandeza. Mas, não é a prática da política. O costume é apagar o passado.

Como também não dá para dizer que Bolsonaro não fez nada. Ele finalizou obra que Luiz Inácio Lula da Silva planejou para 2010 e não conseguiu entregar. Dilma Rousseff (PT) apresentou vários prazos e não teve sucesso. Michel Temer (MDB) correu para entregar a chegada ao Ceará e não conseguiu. Se faltasse tão pouco, os anteriores teriam concluído.

Além da conta mais cara, ninguém reivindica o estouro de orçamento, as denúncias de desvio, os atrasos. Nenhum dos governos cumpriu prazos. Nem o de Bolsonaro. Em fevereiro de 2019, o ministro do Desenvolvimento Regional da época, Gustavo Canuto, disse que a obra seria concluída em maio do ano passado e a água já seria consumida no Ceará em meados do segundo semestre do ano passado. O atraso, claro, foi bem menor. A parte que faltava ser feita, também.

Ciro Gomes, ex-governador do Ceará e ex-ministro
Ciro Gomes, ex-governador do Ceará e ex-ministro (Foto: Thaís Mesquita)

O ministro que iniciou as obras

Ciro Gomes (PDT) é personagem importante na história da transposição. A obra não era promessa da campanha de Lula em 2002. Foi quando Ciro virou ministro que o projeto se tornou política de governo. Tocou a elaboração do projeto, articulou o controverso licenciamento ambiental, a licitação. Mas, não conseguiu iniciar a obra.

Os trabalhos só tiveram início em junho de 2007, quando o ministro da Integração Nacional era um baiano - justo o estado que mais se opõe à transposição. Tratava-se de Geddel Vieira Lima (MDB). Aquele mesmo que, no governo Temer, teve malas e mais malas de dinheiro achadas num apartamento.

 

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