Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é coordenador das plataformas digitais do O POVO. Já foi editor adjunto de política e editor-executivo de Cidades no O POVO.

política
Análise

Fortaleza progressista, será mesmo?

Juraci Magalhães transmitiu cargo para Luizianne em 2004: contestação aos governadores, de modos diferentes
Juraci Magalhães transmitiu cargo para Luizianne em 2004: contestação aos governadores, de modos diferentes

Existe o imaginário de Fortaleza como uma cidade progressista, vanguardista, de esquerda. Esse discurso foi repetido, nesta eleição, por expoentes do PDT, apontando que essa cidade não elegeria Capitão Wagner (Pros). Há bons argumentos a favor da tese. O maior deles, e creio que motivo do surgimento desse discurso, foi a eleição de Maria Luiza Fontenele. Nunca antes uma mulher havia sido prefeita de capital no Brasil. Foi, também, a primeira prefeita do PT. Era comunista, revolucionária, radical. Era fora da ordem sim. Teve também a eleição de Luizianne Lins (PT), em 2004, a contragosto do próprio PT, outro enredo absolutamente fora do comum. O primeiro caso foi 35 anos atrás, outro 16 anos atrás. Tem gente que nasceu na época em que Luizianne foi eleita e que já votará nesta eleição - são pouco mais de mil em Fortaleza, menor número em pelo menos 30 anos. Fortaleza é mesmo progressista? O perfil do eleitor que elegeu Maria Luiza - numa época em que não havia segundo turno - e que elegeu Luizianne é o mesmo de hoje? Aquele eleitor que deu dois votos que foram marcos contra o machismo na política é o mesmo que, em 2018, deu 44,4% dos votos de Fortaleza a Jair Bolsonaro no segundo turno? Percentual que foi o maior obtido pelo presidente entre todas as cidades do Ceará.

A pesquisa Datafolha perguntou como o eleitor se situa no espectro ideológico. Mais à esquerda ou mais à direita? O resultado é diverso. Até porque essas categorias se tornaram bem confusas. Mas, teve mais gente se colocando à direita que à esquerda: 38% a 28%. Dentre esses, 19% se disseram extrema direita e 11% extrema esquerda. Disseram ser centro 21%.

Quando se vai para questões objetivas, a posição do fortalezense não segue uma linha ideológica única. Associa-se majoritariamente a posições tidas como conservadoras, contrárias à legalização da maconha (72%) e a favor da pena de morte (51%) - embora esta última por margem estreita. Em relação ao aborto, a posição majoritária é para que a lei continue como está (51%), permitido em caso de estupro ou risco à vida da mãe. E há defesa de posições consideradas progressistas, a favor da união civil entre pessoas do mesmo sexo (58%) e contra posse de armas (63%).

Juraci Magalhães transmitiu cargo para Luizianne em 2004: contestação aos governadores, de modos diferentes
Foto: Acervo/O POVO.doc
Juraci Magalhães transmitiu cargo para Luizianne em 2004: contestação aos governadores, de modos diferentes

O histórico é de esquerda?

O histórico confirma Fortaleza como cidade progressista? Bem, os votos de esquerda, a rigor, foram os dois que citei: Maria Luiza e Luizianne. Na eleição de Roberto Cláudio, em 2012, ele estava no PSB. No primeiro ano de governo, foi para o Pros, um partido difícil de definir. A ponto de ser hoje a legenda do Capitão Wagner (Pros). RC era já ali um candidato de centro-esquerda. Mas, ali, ele teve o voto conservador, o voto da classe média alta. Entre ele e o PT, a direita foi nele. E foi convicta. Não havia o ruído que há hoje em relação aos Ferreira Gomes, sobretudo em parte do empresariado. Em episódios como os viadutos do Cocó, os conservadores foram a favor de RC. Que, na política posterior de mobilidade - mas não de meio ambiente - e em ações contra a pandemia, aproximou-se das posições mais progressistas.

Até onde consigo recuperar, a ideia de Fortaleza eleitoralmente progressista começou com Acrísio Moreira da Rocha. Teve dois mandatos de prefeito, eleito em 1947 e depois em 1954, pelo pequeno Partido Republicano (PR). Era populista - promovia as "passeatas das carroças". Era improvável e era contra a corrente. Essa talvez seja uma definição mais adequada do fortalezense. Existe uma tradição de voto contestador.

Foi assim inclusive na eleição de Ciro Gomes, em 1988, quando Edson Silva - na época do PDT - teve um desempenho notável. Ele era impulsionado pelo movimento "Fortaleza sim, Cambeba não", contrário ao governo Tasso Jereissati. Essa posição contrária ao então grupo do Cambeba foi também a marca da era Juraci Magalhães, também um populista de direita.

De modo que, sobre Fortaleza, diria que a cidade não tem medo de ousar. Como talvez nenhuma outra capital. E é afeita historicamente a populismos, de direita ou esquerda. A postura dos candidatos e o contexto por vezes pesa mais que as ideologias.

Errata: originalmente, escrevi equivocadamente que Roberto Cláudio foi eleito pelo Pros, mas ele estava no PSB e mudou de partido já depois de eleito.

 

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