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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo política

Retrato da tragédia

Tipo Opinião
Hospital de referência no tratamento de Covid-19, Leonardo da Vinci recebe intenso fluxo de ambulâncias de Fortaleza e do Interior (Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA Hospital de referência no tratamento de Covid-19, Leonardo da Vinci recebe intenso fluxo de ambulâncias de Fortaleza e do Interior

Estamos no meio de uma tragédia, mas parecemos não nos dar conta disso. O Brasil chegou ontem ao terceiro dia seguido com mais de duas mil mortes contabilizadas em 24 horas. Uma calamidade. Duas mil mortes por dia. São dez aviões de grande porte caindo diariamente. Ontem, com base nos dados da Universidade Johns Hopkins, o Brasil passou a Índia no número de casos acumulados desde o início da pandemia. Passou a Índia, gente. Um País com mais de um bilhão de pessoas. A população indiana é equivalente a seis brasis e meio. Sabe lá o que é ter mais casos que eles? A situação é tão crítica e tão anestesiante que daqui a pouco, se conseguirmos reduzir o número de casos pela metade, teremos mil mortos por dia e vai-se acabar achando que está tudo bem, pode abrir tudo.

Na capa do O POVO de ontem está uma imagem que considero síntese do que vivemos hoje. De autoria do repórter fotográfico Fabio Lima, ela mostra um congestionamento de ambulâncias em frente ao hospital de referência do Estado no tratamento de Covid-19, o Leonardo da Vinci. Ela é a expressão visual dos números que se agravam continuamente.

Na segunda-feira, completa-se um ano daquele triste fim de domingo em que foi tornada pública a confirmação dos três primeiros casos de Covid-19 no País. De lá para cá, o Ceará passou de 12 mil mortos. A média é superior a mil mortes por mês. Mil mortes por mês no Estado. Você é abençoado se nenhum deles era seu familiar, seu amigo.

A rede hospitalar já está estrangulada. Ela hoje já não dá conta do número de casos. Como você se sentiria se fosse sua mãe, seu irmão ou seu filho, doente, precisando de atendimento e sem ter leito? Tem muita gente hoje se sentindo assim.

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No meio da tragédia há muitas disputas

No meio da calamidade, desenrola-se uma disputa política e econômica. Cada segmento puxando para seu lado, tentando ser exceção na tentativa desesperada de evitar o colapso da saúde. Restaurantes querem flexibilização, academias. Igrejas. As igrejas, meu Deus do céu. A que papel tem líderes religiosos se prestando. Em São Paulo, o futebol tem a pachorra de dizer que não irá acatar o decreto e buscará outra freguesia para jogar.

Impressiona, mas não surpreende o egoísmo de quem é incapaz de olhar além dos próprios interesses. De quem quer seguir a vida normal apesar de dez mil mortos. Querem seguir sua rotina como se não vivêssemos uma tragédia há um ano.

Setores que se candidatam a ser a orquestra do Titanic nesta pandemia.

O que se passou entre Gilmar e a Lava Jato?

Gilmar Mendes talvez seja hoje o mais duro adversário da ex-Lava Jato dentro do Judiciário. E eu sinceramente gostaria de saber o que aconteceu para essa mudança se processar. Afinal, ele era entusiasta da operação. Em 18 de setembro de 2015, ele disse: "O que se instalou no país nesses últimos anos e está sendo revelado na Lava Jato é um modelo de governança corrupta, algo que merece o nome claro de cleptocracia. Isso que se instalou." Foi ele quem deu a liminar que proibiu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ser nomeado ministro, no ocaso do governo Dilma Rousseff (PT), com base numa escuta tornada pública pelo então juiz Sergio Moro que captou a então presidente da República, algo que jamais caberia a um juiz de primeira instância. Gravação essa ocorrida em horário no qual não havia mais autorização judicial para a escuta, irregularidade que o próprio Moro reconheceu. De muitos atos discutíveis e discutidos de Moro, aquele foi talvez o mais escancarado e o mais obviamente irregular. Gilmar, que agora se indigna com Moro, naquele momento foi avalista. Realmente gostaria de entender por que ele mudou tanto de opinião.

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