Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

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Opinião

CPI da Covid caminha para uma Guerra Fria

A CPI instalada me lembra a cena final do filme Cães de Aluguel, do Tarantino, na qual as personagens apontam armas para as cabeças umas das outras. Sabe como termina a sequência?
Acióli e família ao deixarem o Ceará em  janeiro de 1912
Acióli e família ao deixarem o Ceará em janeiro de 1912

A CPI da Covid passa a ameaçar todas as principais forças políticas brasileiras. O rumo é imprevisível. De todo modo, tende a determinar o futuro do governo Jair Bolsonaro. O presidente é o mais ameaçado e mostra preocupação com isso. Mas, também ameaça prefeitos e governadores, com os quais mantém confronto aberto desde o ano passado, pelo menos.

A situação remete à cena final do primeiro filme de Quentin Tarantino, Cães de Aluguel. Nela, vários personagens mantêm as armas apontadas uns contra os outros, à espera de um movimento de hostilidade para atirar.

A mesma lógica de um pretenso equilíbrio de poderes sustentou 44 anos de Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética mantinham arsenais nucleares como alerta permanente ao adversário para que não agredisse, sob pena de não apenas ser destruído, como criar um cataclismo global. O mundo chegou perto de acabar, mas a guerra entre as potências de fato nunca saiu.

Bolsonaro pressionou pela ampliação de foco da CPI para ter sua arma apontada para os adversários, não ficar apenas refém. Agora, será uma disputa política sobre quem será ouvido, qual o teor do relatório final. O que vai acontecer é imprevisível. A chance de a CPI não dar em nada, sob o peso das pressões mútuas, é considerável.

O impacto bom que ela já terá: todos os governantes ficarão muito mais vigilantes em relação aos atos no combate à pandemia. Inclusive, e principalmente, o Governo Federal. Se a comissão for capaz de frear os disparates do presidente, que se pela de medo de impeachment, já será um ganho.

Ah, de volta à cena de Cães de Aluguel, perdoem o spoiler, mas o filme tem quase 30 anos. No desfecho, diferentemente da Guerra Fria, as armas são disparadas e todos que as apontavam entre si acabam morrendo.

Há 100 anos, morria o maior oligarca do Ceará

Há 100 anos, em 14 de abril de 1921, morria o homem que foi o mais poderoso do Ceará e que se tornou sinônimo de oligarquia: o comendador Antônio Pinto Nogueira Acióli. Era monarquista, mas mudou de lado quando veio a República. Exerceu três mandatos equivalentes ao de atual governador entre o fim do século XIX e o começo do século XX, de 1896 a 1912, quando foi deposto. Somente ele e Tasso Jereissati (PSDB) governaram o Estado em três ocasiões até hoje.

Foi um período de investimentos em infraestrutura na Capital e municípios próximos, com instalação de sistema de esgoto e rede de telégrafo. Também valorizou a educação. Costumava inspecionar pessoalmente as escolas. Na cultura, construiu o Theatro José de Alencar. Foi então um ótimo governo, certo?

Bom, falemos mais um pouco do que foi o governo dele. O ciclo foi marcado pelo autoritarismo e nepotismo. As obras públicas tinham suspeita de superfaturamento e em muitos casos era apontada má qualidade da construção. Ao mesmo tempo que adotava iniciativas com ares modernizadores, combatia a oposição com fúria e violência. Por fim, o oligarca caiu em meio a revolta popular que se converteu em guerra civil nas ruas de Fortaleza.

Num estado marcado pela fragilidade das elites, Acióli conseguiu manter um longo domínio político alicerçado no apoio federal. Quando as condições nacionais mudaram, ele sucumbiu.

Depois dele, vieram outros períodos de longas hegemonias políticas no Estado, de diferentes grupos e perfis, em ditaduras e nas democracias. Nessa curiosa característica do Ceará, ao mesmo tempo caracterizado pelas frágeis elites e pelos longos domínios políticos, com décadas seguidas sem alternância de poder e com oposições raramente vitoriosas.

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