Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

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Opinião

Lula e a disputa com Ciro pelo coração de Camilo

O ex-presidente tem rara capacidade de, de fora para dentro, mexer com a política do Ceará
Lula abraça Camilo: coração disputado
Lula abraça Camilo: coração disputado

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concedeu entrevista ontem a Jocélio Leal, na Rádio O POVO CBN, em um dia crucial para o ex-presidente, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) viria a decidir manter a anulação das condenações dele. Porém, mais relevante ainda acabou sendo aquilo que ele falou sobre o Ceará. Declarações de personalidades de fora do Estado sobre política local muitas vezes são protocolares. Ocorre que o Ceará, para o PT e para o jogo de poder nacional, tem situação única. Pela presença de Ciro Gomes (PDT).

Na disputa entre Jair Bolsonaro e o PT, em 2018 ele foi o terceiro colocado. E, por causa dele, o Ceará foi o único estado onde o vencedor no primeiro turno de 2018 não foi nem Bolsonaro nem o petista Fernando Haddad; Nenhum outro estado tem essa situação: Marina Silva (Rede) não tem essa força no Acre, Luiz Henrique Mandetta (DEM) não tem no Mato Grosso do Sul. Se João Doria concorrer a presidente, alguém tem certeza de que ele vence em São Paulo? Para além do peso local, Ciro tem protagonismo no jogo nacional. Já foi aliado e ministro de Lula. E é aliado do governador petista Camilo Santana. O que torna a questão mais complexa para Lula.

O ex-presidente disse que quer disputar com Ciro o "coração bondoso" de Camilo Santana (PT). Essa é uma briga na qual o governador aprendeu a transitar. Hoje, a propósito, Camilo é muito menos Ferreira Gomes do que era há três anos. A força mostrada na reeleição e nas crises — das facções e da pandemia — deram a ele força própria, o que não tinha quando era um preposto dos Ferreira Gomes alçado ao poder. Camilo é menos Ferreira Gomes, mas isso não faz dele mais petista. Ele sabe transitar e jogar entre as posições. Lula também sabe. O estilo Camilo é de quem vai seguir nesse jogo.

 

Sobre Ciro

Sobre Ciro, Lula tem discurso estrategicamente pensado. Declara respeito, diz esperar entendimento. Mas, faz análise crítica da mudança de posição do pedetista, que considera equivocada e de resultado duvidoso. Lula não crê que Ciro atrairá a direita ou o PSDB. “Ele resolveu colocar o PT e a esquerda como inimigos, para tentar namorar quem? Qual é a dama que ele acha que ele vai ganhar nesse baile do jogo político?”

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Entre Camilo e Eunício

Lula também relembrou a campanha de 2014, na qual não se envolveu na campanha do Ceará. Camilo era candidato, e do outro lado estava Eunício Oliveira. “Na primeira campanha do Camilo, eu não apoiei o Camilo, eu não fui para o Ceará fazer campanha para o Camilo, nem eu nem a Dilma (Rousseff), porque o (Michel) Temer era vice da Dilma e tinha o Eunício, que era candidato aí.”

Inclusive, a escolha de Camilo — e, mais que isso, de um petista — também teve, entre outros motivos, relação com a intenção dos Ferreira Gomes de impedir a eventual entrada de Lula na campanha pró-Eunício. Pelo peso do PMDB na aliança nacional, era mais fácil Lula estar no palanque de Eunício que no dos Ferreira Gomes, que na época estava no Pros, que hoje abriga Capitão Wagner.

O primeiro turno foi apertadíssimo e, se Lula faz campanha para Eunício, a história recente do Ceará seria outra.

Lula e o Ceará

Lula, aliás, tem capacidade de mexer com a política do Ceará. Foi por causa dele que se produziu o inimaginável há duas décadas, quando os Ferreira Gomes e o PT se aliaram para governar o Ceará, há 15 anos. A grande aliança entre o clã sobralense, os petistas e o então PMDB de Eunício Oliveira foi produto do acordo nacional de Lula. Até 2002, Ciro Gomes dizia que deveria votar em Lula "quem acha que está na hora de tacar fogo no país." Sobre o PT no Ceará dizia coisas ainda piores na tentativa de eleger Lúcio Alcântara (PSDB). Em 2006, estavam Lula, Ciro e o PT do Ceará no mesmo palanque. Em 2010, uma entrevista de Lula ao O POVO foi determinante para o rompimento de Tasso Jereissati (PSDB) com os Ferreira Gomes. O próprio Cid Gomes (PDT) viria a reconhecer que articulava para a sua aliança lançar apenas uma candidatura a senador. Como havia duas vagas em disputa, Tasso concorreria sem aliança formal, mas dentro de um acordo na prática. Naquela entrevista, Lula confrontou Tasso e defendeu o lançamento de duas candidaturas aliadas. Dali a alguns dias, o tucano desistiu de esperar Cid e anunciou que o PSDB teria candidato de oposição. Voltaram a se entender na eleição municipal de Fortaleza, no ano passado.

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