Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo
política
Opinião

Manifesto da seleção pode ser furreca, mas é o mais longe que já se foi até hoje

Jogadores da seleção criaram expectativa que não atenderam e erraram feio ao não dizerem nada sobre a pandemia. Mas, manifesto não deixa de ser um raro, quase inédito, posicionamento dos atletas da equipe na história. E tem recado duro para a CBF e para Bolsonaro
 Neymar, Richarlison e Gabriel Jesus comemoram gol
 Neymar, Richarlison e Gabriel Jesus comemoram gol

Muita gente ficou surpresa — e muitos, decepcionados — com a postura da seleção brasileira em relação à Copa América. A sinalização da semana passada e as informações de bastidor fizeram com que se alimentasse a expectativa de que os jogadores se recusassem a disputar o torneio. Honestamente, eu nunca esperei nada dos jogadores. Porque esta é a história dos atletas da seleção brasileira, não se posicionar. Há uma grande parcela de jogadores que não gosta, não entende e não quer saber de política. Quando se posiciona, o mais comum é a adoção de posturas conservadoras — não que isso seja necessariamente um problema, não é disto que estou falando. O ponto é que não esperava que saísse nada de lá para confrontar o governo Jair Bolsonaro e as entidades que dirigem o esporte. Mesmo quando houve jogadores politizados e engajados, que tinham posição em relação a questões do País, eles não se manifestavam usualmente quando na seleção e como seleção. Casos de Tostão, Reinaldo, Sócrates e Casagrande. Nem quando a seleção jogavam em países ditatoriais — ou quando a ditadura era o Brasil.

Então, o fato de os jogadores se posicionarem, como seleção brasileira, é uma tremenda raridade. Nem sei se há precedente. Chegar a uma posição comum entre atletas de perfis, lugares, personalidades e posições tão distintas não é simples.

O texto, todavia, tem um buraco, uma cratera. Não fala da pandemia. Não há uma referência explícita. Isso é um absurdo.

Afora isso, vejo dois aspectos interessantes, enxergando as coisas no contexto de uma instituição na qual os atletas nunca se posicionam sobre coisa nenhuma. Entendo que muita gente tenha ficado decepcionada por uma armadilha que os jogadores criaram para si. Disseram semana passada que se posicionariam depois do jogo de terça passada. Criaram expectativas as mais diversas, conforme a cabeça de cada pessoa. Como escrevi, eu não esperava coisa nenhuma.

Daí que duas coisas me chamam atenção. Uma é a própria tomada de uma posição, esquálida que seja, talvez pela necessidade de se chegar a um denominador comum. A outra é a tomada de posição contra a Copa América. Fiquei até surpreso de eles terem dito explicitamente ser contra a competição que o Brasil, por meio da CBF e com respaldo do governo, decidiu receber.

Eles se posicionam nesse sentido três vezes no texto: “Todos os fatos recentes nos levam a acreditar em um processo inadequado em sua (da Copa América) realização.” “Por diversas razões, sejam eles humanitárias ou de cunho profissional, estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol, fosse ela sediada totalmente no Chile ou mesmo no Brasil”. E terminam: “Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à Seleção Brasileira.”

Não é pouca coisa. Vocês já viram jogadores brasileiros em atividade se posicionarem assim, ainda mais como coletivo, sobre qualquer coisa? Qualquer uma? E ainda mais uma competição que será realizada no Brasil, com respaldo do governo brasileiro.

Tivesse a posição saído no primeiro momento, na semana passada e sem criar expectativa, teria sido uma bomba. De qualquer forma, a posição contra a Copa América é dura e muito ruim para a CBF e para o governo Bolsonaro.

Bolsonaro não acredita na urna, mas as crenças não importam

O presidente Jair Bolsonaro disse ontem que não acredita na urna eletrônica. É um direito dele, mas isso não tem a menor importância. Não se trata de questão de crença. Há de se ter mecanismos técnicos e institucionais que façam a aferição da segurança ou não. Não é questão de fé, é decisão técnica.

Tudo hoje pode ser tratado como se fosse questão de crença pessoal ou de opinião. Daí alguém pode defender que a Terra é plana, a cloroquina é eficaz contra a Covid-19 e os incêndios na Amazônia não existem, porque é naquilo que se acredita. É a opinião.

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