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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo política

Vacinação de adolescentes e o dedo sujo de Bolsonaro

Bolsonaro ouviu jogadora de vôlei no rádio, falou com ministro, que se baseou em informação aparentemente errada sobre morte de jovem e orientou a suspensão da vacina para adolescentes
Tipo Opinião
Queiroga e Bolsonaro: decisão drástica com bases frágeis (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil Queiroga e Bolsonaro: decisão drástica com bases frágeis

Na live na noite de quinta-feira, 16, o ministro Marcelo Queiroga revelou que partiu do presidente Jair Bolsonaro a sugestão, digamos assim, para suspender a vacinação de adolescentes. "A minha conversa com o Queiroga não é uma imposição. Eu levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que eu vejo, o que chega ao meu conhecimento", acrescentou o presidente, deixando claro que a guinada na política de imunização tinha nascido de uma orelhada, ele mesmo não confiava muito na recomendação que fez e tentava se eximir de responsabilidade. O que houve foi uma das maiores irresponsabilidades já vistas em saúde pública.

Diante da evidência do absurdo, Queiroga tratou de tirar do presidente a culpa. "Bolsonaro não mandou nada." Na campanha eleitoral, Bolsonaro dizia não entender de economia e, na dúvida, ouviria o Posto Ipiranga — Paulo Guedes. Na saúde, o presidente talvez seja ainda mais ignorante. Mas, não se furta aos palpites.

De onde ele tirou a ideia de suspender a vacinação dos adolescentes? O presidente estaria ouvindo o programa Pingos nos Is, na rádio Jovem Pan, segundo informou o apresentador Augusto Nunes. O presidente já havia dito que se informa pelo programa. Percebe-se. Bolsonaro disse que acha muito técnico.

No programa, a ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel questionou a vacinação de adolescentes. Bolsonaro indagou Queiroga. O ministro citou a morte de uma adolescente em São Paulo, após a vacinação. Ontem, o Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo informou que a morte não teve relação com a vacina, mas teria sido causada por doença chamada "Púrpura Trombótica Trombocitopênica" (PPT).

A posição do ministério causou um rebuliço, assustou famílias. Mais um ruído criado na vacinação, algo que no Brasil sempre teve discurso uníssono a favor. É um absurdo e um desserviço que a recomendação de não vacinar tenha partido de bases tão frágeis.

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100 anos de Paulo Freire e a razão que os críticos têm

Paulo Freire sempre foi controverso. Era o coordenador do Programa Nacional de Alfabetização, um dos pilares das reformas de base de João Goulart, que motivaram o golpe militar de 1964. Por causa de um programa de alfabetização de adultos. Foi acusado de atuação subversiva. Negava ser comunista e dizia ser socialista.

No lugar do plano de Freire, foi criado o Movimento Brasileiro de Alfabetização, o Mobral. Bebia em parte nas ideias de Freire. Usava, por exemplo, o conceito de "palavras geradoras". Com uma diferença fundamental. As palavras geradoras de Freire eram encontradas na realidade dos estudantes. Era feita pesquisa de imersão na realidade delas. No Mobral, técnicos definiam as palavras. Naquilo que se baseou em Freire, o Mobral buscou se apropriar da metodologia, esvaziando a dimensão política. Ocorre que esse aspecto excluído é crucial.

Freire sempre disse que não queria apenas alfabetizar, mas educar. Não queria só que os estudantes aprendessem a ler e escrever, mas que fossem livres por meio do conhecimento. Que conhecessem a realidade ao seu redor e fossem capazes de transformá-la. Quando os críticos apontam que a educação em Paulo Freire é política, isso é verdade. Talvez é o que ela tivesse de mais importante.

Isso é combatido até hoje. Em 2018, o hoje presidente Jair Bolsonaro defendeu um ministro que "chegue com um lança-chamas e toque fogo no Paulo Freire." Na década de 1960, a proposta de alfabetizar adultos numa perspectiva crítica tinha consequências muito maiores. Não só porque havia parcela de analfabetos muito maior. Educar dezenas de milhões de pessoas era algo capaz de sacudir o sistema político.

Neste domingo, 19, é o centenário de Paulo Freire. No Brasil da década de 1960, havia 15 milhões de analfabetos numa população de 70 milhões. Hoje são 11 milhões entre 213 milhões de habitantes. Ainda é uma tragédia.

O POVO Mais traz um especial sobre o centenário de Paulo Freire. Confira aqui

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