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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo política

Presidente zero à esquerda

Presidente não precisa entender de economia ou qualquer outra área, mas isso não é álibi para se isentar de responsabilidades
Tipo Opinião
Bolsonaro gosta do poder de presidente, não das responsabilidades (Foto: EVARISTO SA / AFP)
Foto: EVARISTO SA / AFP Bolsonaro gosta do poder de presidente, não das responsabilidades

"Em economia, sou zero à esquerda", disse o presidente Jair Bolsonaro em entrevista à rádio Jovem Pan. Ninguém pode alegar que não sabia. Ele falava isso na campanha, ao falar que perguntaria ao "Posto Ipiranga" Paulo Guedes. Ele se disse zero à esquerda ao comentar a atual onda de inflação. O presidente afirmou confiar no presidente do Banco Central, Roberto Campos.

Não é necessariamente um problema um presidente não dominar determinada área. Não é necessário ser um supergovernante, que domine todas as áreas e tenha todas as respostas. O mais importante é escolher bem a equipe.

Bolsonaro afirmou confiar em Campos. "Ele sabe o que fazer. Tenho confiança nele." A declaração é razoável. Mas, tem uma consequência necessária, com a qual o presidente não costuma gostar de arcar. Quando diz que não entende e delega decisões, Bolsonaro não pode se eximir de responsabilidade pelo que fazem os subordinados.

O exemplo mais bem acabado é Luiz Henrique Mandetta. Foi o ministro da Saúde por aproximadamente dois meses de pandemia no Brasil. Começou mais ou menos em linha com Bolsonaro, mas gradualmente as posições se tornaram inconciliáveis com as do presidente. Não teve jeito e saiu. O que ocorre desde então? Bolsonaro ataca as ações de Mandetta como se não tivesse nada a ver com elas. Como se o ministro tivesse caído do céu no cargo. Coisa nenhuma. A nomeação tinha a assinatura de Jair Messias. O que fez de bom ou ruim enquanto esteve no cargo foram ações de governo, que deve assumi-las.

A mesma coisa vale para Sergio Moro, ex-superministro da Justiça e Segurança Pública. Saiu do governo atirando. Bolsonaro e os aliados o atacam. Mas, o que fez durante o governo foram ações de governo e o presidente não pode fazer de conta que não teve nada a ver com elas. Aliás, no caso de Moro vale lembrar que ele saiu porque quis. Ele pediu demissão. Por Bolsonaro, àquela altura, ele teria ficado.

Portanto, não tem problema o presidente ser um zero à esquerda. Não tem problema perguntar para o “Posto Ipiranga”. Desde que isso não seja álibi para depois ele se eximir de culpa. Aliás, é a especialidade de Bolsonaro: fugir às responsabilidades. Combate à pandemia? Governadores. O preço da gasolina? Governadores. Risco de apagão? Falta de chuva. Nada o Bolsonaro acha que é culpa dele. Não entendeu até hoje que, como presidente, tem responsabilidades, assuma-as ou não.

Pois bem, quando se assume zero à esquerda, isso não é álibi para Bolsonaro se eximir da responsabilidade pela inflação. Se, daqui a alguns meses, persistir o desastre da carestia, ele não poderá dizer: culpa do Guedes, culpa do Campos. O responsável pelo governo é ele. Se há acertos, leva o mérito mesmo que nem saiba o que foi feito. Se há erros, ele responde pela culpa.

A retirada de Tasso

Tasso Jereissati (PSDB) confirmou a já esperada desistência da candidatura a presidente da República pelo PSDB. Já havia informado que não mais concorrerá a senador. Os ventos da política podem mudar, mas Tasso parece mesmo se encaminhar para a aposentadoria. Era o que ele projetava no dia em que foi eleito para o atual mandato de senador, em 2014. De lá para cá, muita coisa mudou. Dilma Rousseff (PT) sofreu impeachment. Aécio Neves (PSDB) caiu em desgraça e, com isso, implodiu grande parte do PSDB. Tasso brigou para o partido não apoiar Michel Temer (MDB). E, bem, há Bolsonaro. Os últimos sete anos foram alguns dos mais alucinantes da política brasileira. Período este que marcou o retorno de Tasso a um mandato e que encaminha para a aposentadoria política uma das personagens mais relevantes da história do Ceará.

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