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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo política

Moro, Camilo e o motim de policiais

Os policiais viam no Governo Federal um aliado. Esperavam do então ministro — à época ainda um herói do bolsonarismo — apoio à causa deles. Já o Governo do Estado esperava uma condenação contundente. Moro não foi nem pra lá nem pra cá. Tentou conciliar os dois lados e desagradou todo mundo
Tipo Opinião
Então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, em primeiro plano, e atrás dele o governador Camilo Santana e o então ministro Sergio Moro, durante motim de policiais, em fevereiro de 2020 (Foto: FÁBIO LIMA/O POVO)
Foto: FÁBIO LIMA/O POVO Então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, em primeiro plano, e atrás dele o governador Camilo Santana e o então ministro Sergio Moro, durante motim de policiais, em fevereiro de 2020

O ex-juiz Sergio Moro explicou-se ontem, na entrevista à rádio O POVO CBN, sobre a posição pouco contundente adotada durante o motim de policiais militares em fevereiro de 2020. Moro disse à época e repetiu ontem que o movimento é ilegal. Porém, em 2020, ele acrescentou que “o policial tem que ser valorizado, claro que o policial não pode ser tratado de maneira nenhuma como um criminoso”. Naquela ocasião, Moro frustrou os dois lados. Os policiais viam no Governo Federal um aliado. Esperavam do então ministro — à época ainda um herói do bolsonarismo — apoio à causa deles. Já o Governo do Estado esperava uma condenação contundente. Moro não foi nem pra lá nem pra cá. Tentou conciliar os dois lados e desagradou todo mundo. Ontem, na entrevista aos colegas Jocélio Leal, Rachel Gomes, Farias Júnior e Henrique Araújo, Moro explicou por quê.

O ex-ministro disse que procurou ter papel de mediador, para solucionar o conflito. "Você não tem como chegar para restabelecer esse diálogo com os policiais chutando a porta. Sempre fui uma pessoa de diálogo. A gente quis colocar uma postura que nos parecia mais eficiente para resolver o problema. Ao invés de você ficar ofendendo os policiais e colocando palavras agressivas, vamos sentar na mesa, conversar. A gente foi falar com o governador, sentamos na mesa e mandamos um emissário que resolveu o problema. Foi um emissário do Ministério da Justiça que conseguiu reverter que os policiais voltassem ao trabalho", disse Moro.

Ele criticou ainda a postura do governador Camilo Santana (PT). “Tinha um clima aqui dentro do estado, o governador fez críticas muito severas aos policiais, e ele rompeu toda as pontes que tinha entre o Governo do Estado e os policiais.”

Camilo reagiu com força: “Logo ele, que veio à época aqui e a única ação foi propor anistia para os crimes cometidos. Não aceitei!”, disse o governador. “Diálogo é uma marca que carrego comigo, sr Moro… Mas compactuar com atos criminosos, jamais!”

O raciocínio de Moro não deixa de fazer sentido. A situação durante o motim havia chegado ao extremo de o senador Cid Gomes (PDT) tentar invadir um quartel em cima de uma retroescavadeira, e ser atingido com dois tiros. Não eram dias fáceis e não havia mesmo pontes. Era positivo que alguém assumisse papel de mediador. Porém, há aspectos a considerar.

O motim de 2020 foi filho do realizado na virada de 2011 para 2012. Naquela ocasião, os policiais saíram vitoriosos de forma contundente. O governo, na época do mesmo Cid Gomes, viu-se obrigado a ceder. PMs foram anistiados no fim. Ficou ali plantada a imagem de que, se quisessem, os policiais poderiam impor o que desejassem ao governo. Era preciso dar recado e restabelecer a ordem.

Além disso, ao se colocar como mediador, há formas de se fazer. O emissário que Moro aponta como tendo conseguido acordo é o diretor da Força Nacional de Segurança Pública, Aginaldo de Oliveira, coronel da PM do Ceará. Ele aparece em vídeo discursando para os amotinados. “Vocês movimentaram toda uma comissão de poderes constituídos do Estado cearense e do Governo Federal. Então, os senhores se agigantaram de uma forma que não tem tamanho, e é o tamanho do Brasil que vocês representam.” Não há tentativa de mediação que justifique assim se referir a amotinados.

Os policiais e o governo Bolsonaro

Moro estava no Ceará como representante do governo Jair Bolsonaro. O presidente da República tinha os policiais como aliados e o governador petista como adversário. Em live na época, o presidente mandou recado para o governador. “Que resolva esse problema, que é do seu Estado. Tá certo? Isso é melhor para todo mundo. Negocie com sua Polícia Militar e chegue a um bom termo nesta questão.” A cobrança era para o governador, não aos que faziam um motim que era reconhecidamente ilegal, como disse Moro.

Para além de facilitar a negociação, o ex-juiz e ex-ministro ecoou uma posição política que era do governo.

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