Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Já foi repórter de Política, editor-adjunto da área, editor-executivo de Cotidiano, editor-executivo do O POVO Online e coordenador de conteúdo digital. Atualmente é editor-chefe de Política e colunista
Foto: Reprodução/Facebook
Olavo de Carvalho foi o ideólogo que influenciou os filhos de Bolsonaro
Repare neste discurso feito por Jair Bolsonaro em 5 de março de 1991, na Câmara dos Deputados: "(...) nunca dei maior ênfase à ideologia. Por formação castrense, entendia e entendo o Brasil como minha ideologia. Nem direita, nem esquerda, e sim, o direito."
Bolsonaro já defendia ideias de direita na época. No início da trajetória parlamentar, era a favor da pena de morte, da ditadura militar e, sobretudo, de interesses corporativos dos militares. Pelo corporativismo, nas votações, muitas vezes se aproximava da oposição de esquerda. Na década de 1990, manifestava simpatia por Hugo Chávez. No começo dos anos 2000, dizia que não tinha nada contra comunistas. Por que ele se tornou ícone da direita?
Bem, primeiro porque ele já era de direita, embora não assumisse. Além disso, tinha série de bandeiras que se contrapunham aos progressistas: era contra o feminismo, movimento LGBT, questões étnicas, meio ambiente. Não que essas sejam necessariamente pautas de esquerda. Em culturas políticas menos atrasadas, a direita não permite que a direita se aproprie de tais pautas — sobretudo a ambiental. Mas, Bolsonaro personifica a postura "contra tudo isso aí".
Outro fator crucial foi a chegada do PT ao poder. Bolsonaro sempre foi de oposição, e o figurino de contraponto coube como luva. No momento em que Bolsonaro quis abraçar uma ideologia, Olavo de Carvalho, que morreu ontem, deu o substrato para isso. Por meio dos filhos do presidente, ele foi responsável por oferecer o mínimo de fundamentação, para que tudo não parecesse apenas perdigotos, xingamentos e arminhas com as mãos. Ele deu forma a muitas ideias propagadas nos aplicativos de mensagem, alicerce da ascensão de Bolsonaro.
Diferentemente da família presidencial, ele era capaz de explicar e fundamentar as teorias conspiratórias, elaborar teses mirabolantes para serem replicadas nas redes. Mas, Olavo era incontrolável. Desde o primeiro mês de governo, ele faz críticas. Era um aliado instável. Indicou ministros e assessores próximos do presidente, recusou convite para ele próprio integrar o governo. Desde que Bolsonaro tomou posse, quase só apareceu para criticar e fomentar crises internas.
Não que alguém do clã bolsonarista desejasse a morte de Olavo. De modo algum. Imagino haver admiração sincera. Porém, do ponto de vista prático, a morte dele poupa o governo de problemas e críticas em um setor particularmente delicado. Quanto à formulação? O que Olavo deixa é mais que suficiente para a sustentação teórica do bolsonarismo.
Olavo parecia amargurado
Olavo achava que Bolsonaro se dedicava pouco ao enfrentamento à esquerda e ao comunismo. Criticava o que considerava pragmatismo quando o governo recuava de embates com países árabes devido ao enorme peso que as nações têm na balança comercial do agronegócio brasileiro. Ironizava que tudo era para vender frango. Porém, Olavo quase sempre poupava o presidente das críticas.
Em uma das últimas manifestações, Olavo foi mais duro com Bolsonaro. Numa live em dezembro, afirmou que a reeleição era briga perdida e que o presidente se assemelha a prefeito de interior. Disse ainda que Bolsonaro se aproveitou dele, Olavo, como "poster boy" — ou seja, usou a imagem dele para ganhar apoio —, mas disse que o presidente nunca leu um livro dele inteiro. E afirmou que os amigos dele no governo estavam sendo retirados.
Apesar disso, Olavo disse que Bolsonaro é "excelente administrador". Sim, excelente administrador que admite que não entende nada de economia, é "um zero a esquerda", numa das áreas fundamentais do governo, que interfere em todas as demais, e muito na sociedade.
Olavo de Carvalho sempre foi um gozador.
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