Logo O POVO+
Foto de Érico Firmo
clique para exibir bio do colunista

Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo política

Os vendilhões da fé no governo Bolsonaro

Tipo Opinião
 Presidente Jair Bolsonaro e o então ministro da Educação, Milton Ribeiro  (Foto: Clauber Cleber Caetano/PR)
Foto: Clauber Cleber Caetano/PR  Presidente Jair Bolsonaro e o então ministro da Educação, Milton Ribeiro

Num governo no qual o presidente repete haver "corrupção zero", o ex-ministro da Educação foi preso ontem, pela Polícia Federal do próprio governo. Milton Ribeiro é acusado em um esquema dos mais cabeludos, que envolve exploração política da fé por pastores e tráfico de influência para direcionar recursos políticos a aliados, em troca de propina paga até em barra de ouro. Teria havido pedido de propina até por meio da compra de bíblias.

Para um governo que se diz desprovido de corrupção, é uma desmoralização. Vindo de uma administração que tem na exploração da fé o principal meio de sustentação política, é um escárnio e um desrespeito — com o conjunto da população que é vítima, e para os fiéis em particular. Para um presidente que dizia colocar “a cara no fogo”, dias antes da demissão do ministro, um escândalo que exige explicações dele.

O que se está assistindo é um espetáculo permanente de uso da religiosidade das pessoas para se favorecer. O benefício político de uns tantos já era evidente. O que tem ficado claro desde março é que ele é maior do que se imaginava, e vem acompanhado de benefício financeiro para alguns.

A cobrança sobre Bolsonaro

Já escrevi que Bolsonaro detesta ser cobrado, não quer responsabilidade por nada. Nunca um presidente quis tanto se esquivar dos problemas. A pandemia é culpa dos governadores e do Supremo Tribunal Federal (STF), o aumento da energia é porque não chovia, dos alimentos é em função da guerra e da pandemia, inflação dos combustíveis é culpa dos governadores e da Petrobras. Tudo tem um culpado e nunca é ele. Agora, também está zangado ao ser cobrado sobre a corrupção no MEC — sendo que ele dizia que não havia corrupção no governo — e pela prisão do ex-ministro — por quem ele afirmava colocar a cara no fogo. Ora, quem coloca cara no fogo é para correr o risco de se queimar. Agora, o presidente quer se eximir. Já fez isso até sobre questionamentos ao filho, Jair Renan, suspeito — adivinha — de tráfico de influência. Bolsonaro jogou o pimpolho aos leões: “Vive com a mãe, há muito tempo está longe de mim.” E mais: “Não vou dizer se ele está certo ou se está errado.” Bem antes de ser eleito, em fevereiro de 2017, Bolsonaro foi flagrado mandando mensagem a outro filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro: “Não vou te visitar na Papuda”. Ela mesma, a penitenciária federal. Se não defende os filhos, seria demais acreditar que ele cumpriria a promessa de colocar a cara no fogo.

Sigilo

Os encontros de Bolsonaro com pastores que são alvos de investigação da Polícia Federal foram colocados sob sigilo por 100 anos. Um atestado de que, de fato, muita coisa correta e decente foi feita nos encontros. Um dos pastores foi 35 vezes ao Palácio do Planalto.

O fim da Lava Jato

Em 7 de outubro de 2020, Bolsonaro dizia que acabou com a operação Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo. Tá certo. Ele foi particularmente específico ao falar de lobby — uma das facetas do escândalo do MEC.

“Eu desconheço um lobby para criar dificuldade para vender facilidade. Não existe. É um orgulho, é uma satisfação que eu tenho, dizer a essa imprensa maravilhosa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo. Eu sei que isso não é virtude, é obrigação”, falou o presidente.

Diz um ditado português: a língua é o chicote da bunda.

Foto do Érico Firmo

É análise política que você procura? Veio ao lugar certo. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

Essa notícia foi relevante pra você?