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O desafio de isolar a política do Ceará do debate nacional
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Já foi repórter de Política, editor-adjunto da área, editor-executivo de Cotidiano, editor-executivo do O POVO Online e coordenador de conteúdo digital. Atualmente é editor-chefe de Política e colunista

Érico Firmo política

O desafio de isolar a política do Ceará do debate nacional

A tarefa de concentrar a discussão na esfera estadual e evitar as questões nacionais é particularmente complexa no atual ambiente de polarização
Tipo Opinião
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EX prefeito Roberto Cláudio prioriza debate local (Foto: João Filho Tavares)
Foto: João Filho Tavares EX prefeito Roberto Cláudio prioriza debate local

No fim de semana passado, em meio ao noticiário sobre Nicolás Maduro, Venezuela e Donald Trump, o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (União Brasil), fez uma publicação na qual tangenciou a questão para provocar Elmano de Freitas (PT), mas trouxe a discussão para o Ceará. Cobrou a prisão do prefeito afastado de Choró, Bebeto Queiroz.

“Governador Elmano, saindo desse debate da prisão do Maduro, que moveu até nota de solidariedade do governador, tenho duas perguntas. Quando mesmo você vai mandar prender o Bebeto do Choró?” Ele ainda questionou a administração sobre o enfrentamento às facções criminosas. A formulação de RC expõe o desafio em que ele e o aliado Ciro Gomes (PSDB) se colocam para a construção do discurso de oposição.

Desde maio de 2025, quando se tornam mais explícitas as articulações com a oposição, Ciro e Roberto defendem focar no Estado. “Olhando no ponto de vista nacional são diferenças às vezes incontornáveis, porém, se nós temos em atenção que a tarefa é salvar o Ceará, as diferenças podem ser tratadas de uma forma correta, respeitosa, leal, em que a gente estabeleça pontos de convergência, por exemplo, a política no Ceará”, disse Ciro em maio.

Na filiação ao PSDB, em outubro passado, ele voltou ao tema. “Nós não devemos ter medo de afirmar, com honestidade e humildade a todo o povo do Ceará, que nós temos diferenças. Quando o olhar é sobre a vida nacional, um ambiente absolutamente passionalizado, calorosamente, por uma polarização assentada no ódio, na paixão despolitizada, mais violentas ainda ficam as contradições. Se nós não tivermos a generosidade de compreender o que, nos sendo comum, nos obriga a trabalharmos juntos e trabalhar nossas diferenças sem vergonha nenhuma, sem nenhum cabimento de ficar escondido seja de quem for”.

Há, efetivamente, contrastes grandes no bloco de oposição. Capitão Wagner (União Brasil) já foi o adversário prioritário tanto de Ciro quanto de Roberto Cláudio. Concorreu com apoio do bolsonarismo, mas, desde 2024, enfrenta resistências entre os líderes do bloco. Ciro Gomes foi muito crítico de Bolsonaro. Disse coisas pesadas, que Michelle Bolsonaro (PL) não esquece.

O problema é que haverá eleição presidencial este ano. E, inevitavelmente, acaba se sobrepondo. Sempre é. Acho ruim, inclusive. O debate local é eclipsado. Candidaturas muitas vezes vão a reboque da campanha nacional e deixam os problemas locais em último plano. Isso é prejudicial. Seria ainda pior com a ideia que circulou por aí de unificar todas as eleições, inclusive as municipais. As campanhas para prefeituras iriam desaparecer. Isso é negativo sobretudo porque leva candidatos a serem eleitos por fatores externos, pela popularidade de terceiros. Mas a realidade é essa.

A tarefa de concentrar a discussão na esfera estadual e evitar as questões nacionais é particularmente complexa no atual ambiente de polarização.

Os debates a serem enfrentados

Roberto Cláudio cita de passagem a Venezuela, para explorar a solidariedade do governador a Maduro e assim desgastá-lo. Mas o ex-prefeito nem chega a expressar a própria opinião. Na teoria, ele faz algo inteligente. Procura usar o tema contra o adversário, mas sem se expor. Seria brilhante se desse resultado. Mas, no ambiente passional da política de hoje, parece-me pouco provável que o eleitor aceite alguém se eximir dos principais debates. As pessoas querem que os políticos se posicionem e tomem lado, para o aplauso ou para a vaia.

O marketing político clássico, asséptico, de ir só na boa e usar a arma contra o adversário, mas sem deixar o flanco aberto, dificilmente se aplica no ambiente conflagrado de hoje. É preciso mergulhar nos assuntos, por vezes pantanosos, abraçar posições e arcar com as consequências. Quem assume postura ambígua ou distanciada hoje costuma pagar preço alto.

Foto do Érico Firmo

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