Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é coordenador das plataformas digitais do O POVO. Já foi editor adjunto de política e editor-executivo de Cidades no O POVO.

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Opinião

40 anos do PT, o partido de um Brasil que já não existe

 Marcio Pochmann fala de dentro do PT sobre um mundo que o PT não entende
 Marcio Pochmann fala de dentro do PT sobre um mundo que o PT não entende

O PT completa 40 anos na segunda-feira, 10, e promove comemorações ao longo de todo o fim de semana. A legenda é parte da história brasileira. Nenhum outro partido elegeu o presidente da República na democracia brasileira em três eleições seguidas. O PT elegeu em quatro - embora o último mandato, de Dilma Rousseff, não tenha sido concluído. O PT tem uma vida partidária diferente de todos os outros, embora tenha perdido muito em efervescência. Porém, o que o PT teve de mais original foi a forma como ele surgiu.

Um ex-militante do PCdoB e nome histórico do PT, Oséas Duarte certa feita resumiu sobre a diferença que o PT significou na história da esquerda brasileira. "Não tinha um comunista dentro dos paus de arara." Na época em que houve as maiores levas migratórias de nordestinos para o Sudeste, Oséas era ativista comunista. E aponta como a velha esquerda ficou alheia àquele processo de formação do Brasil pelos 30 anos seguintes. Ali a economia brasileira se reconfigurou, a classe trabalhadora ganhou feições novas. E o PT surgiu em meio a esse processo.

Não apenas. O PT teve algo diferente de todos os demais partidos. Ele surgiu de uma organização de sindicatos, sim. Mas, também, dos Movimentos Eclesiais de Base da Igreja Católica, movimentos feministas, intelectuais. O PT nasceu com um enraizamento social que, na esquerda, Psol, PCdoB, PSB, PDT, PSTU, nenhum outro teve.

A questão é que a sociedade que originou o PT não existe mais.

O novo Brasil

Na semana passada, recebi do professor Cleyton Monte interessante discurso do economista Marcio Pochmann, feito no ano passado. Pochmann é presidente da Fundação Perseu Abramo, que pertence ao PT. No governo Dilma Rousseff, foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Na época, escreveu questionando o discurso de "nova classe média". Mostrou que o aumento de renda do qual o PT tanto se orgulha não levou ao surgimento de uma nova classe média, em parâmetro internacional algum. O que surgiu foi uma nova classe de trabalhadores pobres.

No ano passado, Pochmann apontou uma questão mais profunda: o Brasil que deu origem ao PT já não existe.

Há 40 anos havia uma burguesia industrial no País. Hoje, a indústria de transformação representa 11% do PIB. É a menor participação desde a década de 1940. Equivalente ao que existia em 1910. Houve a transição de uma sociedade industrial para sociedade de serviços. A classe média assalariada dos anos 80, base do PT, quase já não existe. O emprego clássico da classe média diminuiu bastante. Há uma classe média de PJs (pessoas jurídicas). Grande parte dos trabalhadores não está nas fábricas. Está nos shoppings, são prestadores de serviço, dirigem Uber, são entregadores Rappi. "A classe trabalhadora está cada vez mais ligada a um trabalho imaterial e submetida a nova organização temporal e espacial", ele diz. Partidos de esquerda e sindicatos, ainda segundo ele, não têm discurso para esse mundo.

Tendência à direita

Esse novo mundo envolve muita insatisfação, sim. Mas, diferentemente do que ocorreu no passado, quem tem conseguido capitalizar o descontentamento é a extrema-direita. Com um fator adicional: do fim dos anos 70 para hoje, a força das igrejas evangélicas cresceu de forma exponencial. O PT cresceu com um pé fincado nas alas progressistas da Igreja Católica. No poder, o PT teve sempre apoio de denominações como a Igreja Universal. Hoje, porém, esses grupos reforçam a direita em firme oposição ao petismo. Por volta de 2032, aponta Pochmann, os evangélicos deverão ser maioria da população.

O desenho social do Brasil aponta tendência de fortalecer ainda mais as ideias de direita e a extrema-direita. E, quem fala isso é um dos principais formuladores do partido, o PT não foi capaz de entender essa nova realidade. Se no passado não houve comunistas nos paus de arara, não há hoje petistas nos Ubers e Rappis.

 

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