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Charles Bukowski, o bêbado fundamental da literatura
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Jornalista, divulgador científico e professor da Universidade Federal de Rondonópolis. É doutor em ecologia pela Universidade Autônoma de Madrid, Espanha

Fabio Angeoletto ciência e saúde

Charles Bukowski, o bêbado fundamental da literatura

O poeta não se alinhava a nenhum grupo ou ideologia, um signo de inteligência. Desprezava os homens de negócios, os tubarões capitalistas e sua mesquinhez. Mas tampouco corroborava socialistas
Tipo Opinião
Fabio Angeoletto, professor da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Fabio Angeoletto, professor da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR)

A obra de Charles Bukowski (1920-1994) vale mais do que a de um milhão de sociólogos. Essa é uma boutade tipicamente bukowskiana, e o autointitulado "velho safado" e "melhor poeta da América", a aprovaria com uma gargalhada. Bukowski, ou "Hank" para os seus amigos, escrevia literalmente sobre sua vida, retratando fielmente a escória da sociedade americana: putas, andarilhos, vagabundos, moscas de bar, pobres-diabos encalacrados em empregos sem futuro.

Estaria hoje o bardo ainda entornando hectolitros de cerveja barata? Definitivamente sim. "Cerveja/ rios e mares de cerveja/ cerveja é tudo", pontificou o poeta. Bukowski amava o goró. A primeira palavra que a sua única filha pronunciou foi "álcool" (de acordo com Howard Sounes, seu biógrafo). Mas Hank não se considerava um alcoólico, apesar dos porres diários, porque ele era um autor prolífico - um argumento irrefutável. Ele escrevia para afastar a pobreza e os seus demônios, como um náufrago que agita os braços para não afundar. Com o rádio em uma estação de música clássica - Hank amava as sinfonias de Johannes Brahms - e um estoque robusto de cervejas e outros lubrificantes de sinapses, Bukowski varava madrugadas escrevendo em quartos miseráveis alugados em cortiços.

Ou escrevendo, ou vivendo as madrugadas e os dias como mosca de bar - e tomando notas para seus livros. Mas Bukowski não era um bêbado comum, e não pretendia ser um bêbado anônimo. Ele perseguiu a fama sempre. E quando ela chegou, ainda que tardiamente, Hank desfrutou-a, dormindo com todas as fãs que lhe presenteavam com garrafas de whiskey. E desfrutou da grana também, sem nenhuma culpa.

Bukowski não se alinhava a nenhum grupo ou ideologia, um signo de inteligência. Desprezava os homens de negócios, os tubarões capitalistas e sua mesquinhez. Mas tampouco corroborava socialistas. "Poesia, amo a poesia", disse em uma ocasião, beijando as cédulas de dólar que ele acabara de receber por uma audição. "Isso é melhor que sexo. Ou quase." A um tipo metido a asceta: "não tenho nada contra o dinheiro. Dê-me todo o dinheiro que você quiser. Não vou recusá-lo. Porque eu estive arruinado muitas vezes, passei fome por tanto tempo, conheço o valor do dinheiro. É enorme. O dinheiro é mágico." n

 

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