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Foi pelo dólar, não pelo petróleo
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Professor da Universidade Regional do Cariri (Urca) e advogado. Membro da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia

Foi pelo dólar, não pelo petróleo

O objetivo central da agressão à Venezuela é a defesa da hegemonia do dólar, sem a qual a economia dos EUA não se sustenta
Tipo Opinião
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DELCY Rodríguez, presidente interina, e Donald Trump (Foto: FEDERICO PARRA / AFP)
Foto: FEDERICO PARRA / AFP DELCY Rodríguez, presidente interina, e Donald Trump

O ataque militar dos EUA à Venezuela constitui uma violação deliberada dos princípios mais elementares do Direito Internacional. A tentativa de justificar essa agressão com a acusação de que Maduro seria líder de um cartel de drogas é grotesca. A própria Justiça norte-americana já abandonou essa narrativa, substituindo-a por acusações genéricas de corrupção e posse de armas, o que evidencia o caráter instrumental da criminalização.

O centro real da ofensiva, portanto, não é o combate ao crime, nem a defesa da democracia, tampouco o acesso ao petróleo venezuelano. Os EUA já são autossuficientes e exportadores de petróleo. Além disso, a indústria petroquímica da Venezuela exige investimentos bilionários, planejamento de longo prazo e grandes obras de infraestrutura, com retorno incerto em um contexto de transição energética e instabilidade política. O objetivo central da agressão é outro: a defesa da hegemonia do dólar, sem a qual a economia dos EUA não se sustenta.

Desde o fim do padrão-ouro, em 1971, o valor do dólar não decorre de lastro material, mas da imposição de seu uso global. Esse papel foi consolidado nos anos 1970 com a criação do sistema dos petrodólares: acordos com a Arábia Saudita e a OPEP, que estabeleceram que o petróleo, estratégico para a economia mundial, seria negociado em dólares. Desde então, qualquer país que precise de energia precisa, antes, de dólares, e as receitas do petróleo retornam ao sistema financeiro dos EUA, financiando sua dívida pública e déficits permanentes.

Esse arranjo permite aos EUA exportar inflação. Ao emitir moeda para sustentar o maior déficit fiscal do planeta, Washington espalha os custos pelo mundo, pois bancos centrais, empresas e governos estrangeiros absorvem dólares para comércio, reservas e investimentos. O que seria uma crise inflacionária doméstica transforma-se em um custo global imposto ao restante do planeta.

Esse mecanismo começa a ser tensionado com o avanço dos BRICS e com a China tornando-se a principal compradora de commodities da América do Sul. A desdolarização do comércio internacional ameaça o núcleo do poder norte-americano. Nesse contexto, a Venezuela ao vender petróleo fora do circuito do dólar e aprofundar relações com China e Rússia, tornou-se um alvo exemplar. A agressão militar não visa simplesmente o petróleo, mas a preservação do sistema petrodólar e do uso global do dólar.

O ataque à Venezuela revela a fase atual do poder dos EUA: incapaz de liderar por meio de ideias, projetos multilaterais ou um horizonte comum de futuro, restou-lhe a força bruta. As armas tornaram-se o último recurso de uma hegemonia em declínio. Cabe a nós, povos latino-americanos defender nossa soberania e prepararmo-nos para resistir, inclusive no terreno eleitoral, às pressões de um poder que já não convence, apenas se impõe.

 

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