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Quem melhor organiza a rede molda o debate público
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Professor da Universidade Regional do Cariri (Urca) e advogado. Membro da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia

Quem melhor organiza a rede molda o debate público

.No processo eleitoral, é importante papel da imprensa profissional e do sistema de justiça verificar a veracidade da informação, sua correspondência com a realidade
Tipo Opinião
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A cada eleição, reaparece a preocupação com a qualidade da informação que circula no debate público. Quase sempre, porém, o ponto de partida é uma premissa ingênua: a ideia de que informar é tentar representar o real tal como ele é. Essa é, inclusive, a base da distinção que se faz entre informação errônea, isto é, uma tentativa malsucedida de descrever a realidade; de desinformação, que seria, então, uma mentira deliberada, uma construção consciente do falso.

A questão é que a informação não existe para representar a realidade, ela existe para conectar elementos distintos em uma rede. Informar é "pôr em formação", é organizar vínculos, estabelecer sentidos compartilhados. E, assim, informação cria realidades sociais, não apenas as descrevem.

Vejamos o exemplo dos livros sagrados. Eles não se apresentam como relatos empíricos do mundo, nem precisam sê-lo. Ainda assim, são informação. Os relatos neles contidos têm a capacidade de estabelecer conexões entre pessoas, pondo-as "em formação", organizando-as em uma rede cujo propósito é o culto a um determinado deus. A mágica é que isso cria uma realidade. O resultado é concreto! As religiões, que são redes criadas pela informação, exercem concretamente poderosa influência no modo de vida, na organização social, moldam comportamentos, normas morais e relações de poder. A rede, criada a parir daquilo que conectou as pessoas (a informação!), cria realidade não necessariamente a partir de uma verdade. Perceberam o perigo?

Nesse sentido, "furar a bolha" não significa apenas muitas visualizações, likes, curtidas e compartilhamentos, mas produzir uma informação capaz de construir uma rede superior, mais ampla, conectando indivíduos e grupos antes pertencentes a redes diferentes, articulando a partir de uma informação aqueles que antes estavam separados em universos distintos.

Mas atenção! Abandonar a visão ingênua de informação não implica negar a existência da verdade. Implica reconhecer que a informação, correspondendo ou não à realidade, sempre estabelece rede.

No processo eleitoral, é importante papel da imprensa profissional e do sistema de justiça verificar a veracidade da informação, sua correspondência com a realidade. Sem isso não há racionalidade possível no debate público, e as eleições podem fazer triunfar ideias fantasiosas, erradas, ou mesmo ideias autoritárias, obscurantistas e incompatíveis com a dignidade humana e a democracia.

Mas no debate público em geral, e no eleitoral em particular, é urgente ir além da pergunta sobre o verdadeiro e o falso. É preciso perguntar também: que conexões a informação produz? Quem ela põe em formação? Que rede nova ela cria e com qual finalidade? Só assim poderemos proteger nossos direitos, nossa dignidade e uma democracia que ainda se encontra em processo de consolidação.

 

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